O que antes era poço sem fundo,... Rogerio Finnally

O que antes era poço sem fundo,
Tornou-se cratera sem fim.
O ferimento que se tornou câncer,
Dia após dia vem consumindo minha carne.
Meu cérebro está inútil,
Não é nada mais do que
Uma lama com consistência pastosa.
Meus nervos de nada servem;
Esse aspecto de liga me deixa com mais nojo
Do que restou de mim.
O líquido que antes era rico em meu corpo,
Desceu aos pés.
São bolhas ulcerantes;
Não sei se pela minha doença
Ou de tanto correr atrás da minha cura.
Meu estômago já congelou
De tanto sentir um frio na barriga.
(Igual a esse que você está sentindo agora)
Meus pulmões a muito não se enchem completamente.
O ar que os enchia se foi.
Eles ficaram despedaçados.
O ar que agora respiro é vidro estilhaçado.
A força que me resta,
Concentro para proteger
A única parte importante
Nesse pedaço de lixo decomposto.
E resisto à morte até que minha cura venha buscar o seu presente.
Mas se esta cura não vem,
Não me iluda nem alimente minha fantasia com falsas esperanças.
Estou acabado! Não sou digno de pena!
Deixe-me agonizar até que meu espírito vá para Deus,
E minha alma seja julgada.
Não torne o resto de minhas horas inúteis,
Pois pior não irá ficar.
Sorria da minha desgraça.
Sorria dos dias os quais tive vigor.
Sorria do meu futuro.
Sorria da minha inexistência.
Já estou sem esperanças.
Anestesiado, meus olhos se perdem no vazio.
Minha cura não está lá,
Nem ao meu lado.
Não sei se minha cura está perto.
Não sei se minha cura está longe.
Sei que ela quer ficar escondida.
Pois, bem longe ouvi uma voz dizendo:
‘Se possível, apague este comentário’
Ao menos poderíamos ser diplomáticos,
E celebrarmos o Tratado da Eutanásia.
Meu pescoço está sob suas botas.
‘It might kill me’