Dentro das paredes escuras, o ralo... Celso roberto nadilo
Dentro das paredes escuras, o ralo absorve os resquícios da natureza humana. O equilíbrio entre a vida e a morte traduz-se em traços de bisturi frio e afiado.
Nuances da escuridão são frutos da própria noite; o trabalho árduo e cru torna-se o tempero da nova equipe. As ferramentas parecem nunca parar. Olhares de desdém cruzam o ar podre e sem vida, onde a beleza termina e a riqueza perde todo o valor — pois quem construiu aquela vida jamais teve a devida importância.
Diante das ofensas, resta apenas a resposta automática: "Obrigado pela preferência". Nada mais. Sem somar, sem diminuir. O último banho. O último suspiro capturado num olhar frio, mas envolto em dignidade — afinal, ali, ninguém é melhor do que ninguém.
Quando a serra corta os ossos e o corpo é reduzido a pó, o único murmúrio que se ouve é: "Já acabou... já estava se desmanchando".
Enquanto isso, em uma sala fechada, os vivos cobiçam os bens. O que realmente importa para eles reduz-se à última bebida e à despedida formal. Olhares gélidos, carros importados e um vazio imenso no peito. O universo observa pela janela: as pessoas só se lembrarão até que a própria hora chegue. Elas se tornam parte dessa mesma poeira, trocando os mesmos olhares frios, servindo de motivo para brigas num momento de partida.
E depois de tudo terminado, resta apenas o filme que passa na mente: a lembrança da alegria de viver e a nostalgia de um sonho familiar.
