A ORIGEM DO BEM E DO MAL: A LEI DIVINA,... Marcelo Caetano Monteiro
A ORIGEM DO BEM E DO MAL: A LEI DIVINA, O LIVRE-ARBÍTRIO E O PROGRESSO MORAL DO ESPÍRITO
UMA REFLEXÃO À LUZ DE ALLAN KARDEC EM
“A GÊNESE”
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Entre os grandes questionamentos da humanidade, poucos despertam tanta reflexão quanto a origem do bem e do mal. Desde os tempos antigos, o ser humano busca compreender por que existem o sofrimento, as imperfeições morais, as injustiças e as dores que acompanham a trajetória terrestre.
Allan Kardec, em A Gênese, apresenta uma análise profunda e racional desse problema, afastando tanto a ideia de um Deus criador do mal quanto a existência de um princípio eterno destinado exclusivamente à maldade. Para a Doutrina Espírita, Deus é a inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas; sendo infinitamente perfeito, justo e bom, tudo aquilo que procede de sua vontade traz em si a marca de sua sabedoria.
O mal, portanto, não pode ter origem em Deus.
DEUS E A IMPOSSIBILIDADE DO MAL COMO CRIAÇÃO DIVINA.
Se o mal fosse atribuído a um ser independente e eterno, haveria a necessidade de admitir uma potência contrária a Deus. Existiriam, assim, dois princípios absolutos em constante oposição: um voltado para o bem e outro destinado ao mal.
Essa concepção, porém, seria incompatível com a harmonia observada na criação, pois significaria aceitar uma disputa permanente entre forças equivalentes. A ordem universal, entretanto, revela unidade, equilíbrio e finalidade.
Se, por outro lado, esse ser fosse inferior a Deus, teria necessariamente sido criado. E, nesse caso, o problema permaneceria: Deus teria criado um Espírito destinado ao mal, o que contrariaria sua bondade infinita.
A visão espírita conduz a outro entendimento: o mal não é uma criação divina, mas consequência das imperfeições do Espírito em sua marcha evolutiva.
O MAL E SUAS CAUSAS.
Kardec distingue dois grandes grupos de males que atingem a humanidade:
aqueles que independem diretamente da vontade humana, como os fenômenos naturais;
aqueles produzidos pelo próprio homem, através de suas escolhas, paixões e imperfeições.
Muitas vezes, o ser humano julga determinados acontecimentos como injustos porque observa a realidade apenas sob uma perspectiva limitada. Sua compreensão alcança somente uma pequena parte do conjunto dos acontecimentos.
A criatura humana vê o momento presente; Deus contempla a totalidade da evolução.
Aquilo que parece sofrimento sem finalidade pode possuir uma função educativa dentro das leis divinas. A dor, quando compreendida espiritualmente, não representa abandono ou punição arbitrária, mas instrumento de aprendizado e transformação.
A DOR COMO INSTRUMENTO DE PROGRESSO.
A inteligência humana recebeu recursos para enfrentar as dificuldades da existência. Ao longo da história, as necessidades estimularam descobertas, desenvolveram conhecimentos e impulsionaram o progresso.
As dificuldades despertam a capacidade de pensar, criar e superar obstáculos.
Sem desafios, o Espírito permaneceria estacionado. A experiência dolorosa, embora muitas vezes difícil de compreender, impulsiona o desenvolvimento das faculdades humanas.
A dor funciona como um chamado à renovação interior.
Ela revela limites, corrige caminhos e desperta valores que permaneceriam adormecidos.
AS VERDADEIRAS RAÍZES DO MAL.
Segundo Kardec, grande parte dos sofrimentos humanos nasce das próprias imperfeições morais.
O orgulho, o egoísmo, a ambição desmedida e a busca exagerada pelos interesses pessoais estão na origem de muitos conflitos individuais e coletivos.
As guerras, as injustiças, as opressões e grande parte dos desequilíbrios sociais têm como fundamento o afastamento do homem em relação às leis divinas.
Deus estabeleceu leis perfeitas, cujo objetivo é conduzir o Espírito ao bem. Essas leis estão inscritas na consciência humana e são constantemente recordadas pelos ensinamentos dos grandes mensageiros espirituais.
Jesus, como guia e modelo da humanidade, apresentou o caminho da renovação moral através do amor, da humildade, do perdão e da caridade.
O MAL COMO AUSÊNCIA DO BEM.
Uma das mais profundas afirmações de A Gênese está na compreensão de que o mal não possui existência própria como força independente.
Assim como o frio representa a ausência do calor, o mal representa a ausência do bem.
Não existe uma essência criada para o mal. Existe o afastamento voluntário do bem.
Quando o Espírito escolhe caminhos contrários às leis divinas, experimenta naturalmente as consequências de suas próprias escolhas.
O sofrimento decorrente das más decisões não representa vingança divina, mas resultado educativo da própria lei de causa e efeito.
Deus não condena o Espírito; oferece continuamente oportunidades de aprendizado e renovação.
O LIVRE-ARBÍTRIO E A RESPONSABILIDADE MORAL.
Uma das maiores dádivas concedidas ao Espírito é o livre-arbítrio.
Deus poderia ter criado seres automaticamente inclinados ao bem, sem possibilidade de erro. Porém, nesse caso, não haveria verdadeira conquista moral.
A perfeição adquirida pelo esforço próprio possui valor superior à perfeição recebida sem participação consciente.
O Espírito progride porque escolhe, aprende, corrige-se e transforma-se.
A responsabilidade pelo mal praticado pertence ao próprio ser que, utilizando sua liberdade, escolheu caminhos contrários à lei divina.
AS PAIXÕES E O PROCESSO EVOLUTIVO.
Kardec explica que as paixões, em sua origem, tiveram uma função necessária no desenvolvimento humano.
Nos estágios iniciais da evolução, o instinto de conservação predominava. A busca pela sobrevivência era uma necessidade natural.
Entretanto, aquilo que foi útil em determinado estágio pode tornar-se prejudicial quando permanece sem controle em fases superiores.
O problema não está na existência das tendências naturais, mas no abuso delas.
A inteligência deve conduzir os impulsos, elevando o Espírito acima das necessidades exclusivamente materiais.
O progresso espiritual ocorre quando o ser aprende a dominar suas inclinações inferiores e direciona suas forças para o bem.
CONCLUSÃO:
O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO INTERIOR.
A origem do mal, segundo o Espiritismo, não está em Deus, nem em uma força exterior criada para corromper o homem.
Ela encontra-se nas escolhas equivocadas do Espírito ainda em processo de evolução.
Mas, ao lado do mal, Deus colocou o remédio: a consciência, a inteligência, o aprendizado, a experiência e a possibilidade permanente de renovação.
O mal não é o destino do Espírito. É apenas uma etapa superável no caminho do aperfeiçoamento.
A criatura humana carrega dentro de si a capacidade de transformar-se. Quando compreende as leis divinas e decide praticar o bem, inicia a verdadeira libertação interior.
A grande vitória do Espírito não é jamais ter enfrentado dificuldades, mas ter aprendido, através delas, a escolher conscientemente o amor, a justiça e a fraternidade.
FONTES.
KARDEC, Allan. A Gênese — Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Capítulo III — “O Bem e o Mal”.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das Leis Morais.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo V — “Bem-aventurados os aflitos”.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo. Capítulo IX — “Os Demônios”.
