ENTRE O ENCANTO E O DESGOSTO Por: Marco... Marco A Moreira Cardoso...

ENTRE O ENCANTO E O DESGOSTO


Por: Marco Arawak




No mar profundo, onde o mundo parece dançar sobre as águas, há mistérios que nenhuma palavra consegue alcançar. As ondas se desfazem e retornam, como pensamentos que insistem em voltar. Há dias em que tudo parece distante, fosco, sem cor; dias em que o desgosto chega sem pedir passagem e transforma até aquilo que era familiar em paisagem estranha.


As sombras machucam não porque tenham mãos, mas porque às vezes carregamos dentro de nós aquilo que ainda não conseguimos compreender. Há olhares que pesam, silêncios que dizem mais que palavras e lembranças que permanecem mesmo quando já não queremos recebê-las.


Então uma brisa atravessa a copa das árvores.


É quase nada.


Mas basta.


O vento movimenta as folhas, leva alguns segredos e devolve outros. Talvez a vida seja assim: uma sucessão de coisas que chegam, permanecem por algum tempo e depois seguem adiante, deixando em nós marcas que nem sempre sabemos nomear.


A alma também possui suas marés.


Há momentos em que transborda e outros em que recua para lugares silenciosos. Chora sem testemunhas, questiona antigas crenças, enfrenta censuras, medos e incêndios que ninguém vê. E, no fundo dessas inquietações, o coração continua procurando um caminho.


Porque há paixões que começam como promessa e terminam como ferida.


Há sonhos que se desfazem justamente quando acreditávamos tocá-los.


Há amores que deixam de ser abrigo e passam a doer.


Mas nem toda perda é o fim de alguma coisa.


Às vezes, é o espaço necessário para que outra forma de vida encontre lugar.


O amanhecer não pergunta o que aconteceu durante a noite. Simplesmente chega. A luz toca lentamente aquilo que estava escondido e devolve contorno às coisas. O que parecia perdido ganha outra perspectiva. O que parecia definitivo revela-se apenas uma passagem.


É nesse instante que a poesia começa a fazer aquilo que a memória nem sempre consegue.


Ela transforma.


Não apaga a dor, mas muda sua linguagem.


Não nega o desgosto, mas impede que ele seja a última palavra.


O amor pode ter sido ferido e ainda assim continuar sendo amor. A confiança pode ter sido abalada e ainda assim reconstruída. O coração pode carregar cicatrizes sem precisar transformá-las em morada.


A vida segue como um caminho que não revela toda a paisagem de uma vez. Caminhamos entre certezas e dúvidas, entre encontros e despedidas, entre aquilo que desejávamos e aquilo que aprendemos a aceitar.


Às vezes caminhamos sozinhos.


Mas estar sozinho não significa estar vazio.


Há dentro de nós um lugar onde alguma coisa permanece acesa, mesmo quando tudo parece silencioso. Não é certeza. Não é promessa. É apenas a possibilidade de continuar.


Um fio.


Um movimento.


Um passo depois do outro.


No céu vasto, o azul parece infinito. O sol atravessa as sombras e lembra que nenhuma noite possui o poder de apagar definitivamente a possibilidade de um novo dia.


Até a tristeza, quando atravessada com consciência, pode perder sua força.


Ela pode continuar existindo, mas já não governa.


O desgosto deixa de ser destino e transforma-se em passagem. O que antes parecia apenas ferida pode tornar-se consciência. O que doeu pode ensinar sem precisar permanecer doendo para sempre.


É assim que sigo.


Não porque tenha deixado de sentir medo, mas porque aprendi que coragem não é caminhar sem medo. É continuar mesmo quando o caminho ainda não está completamente iluminado.


Verso após verso, reúno aquilo que a vida espalhou.


Memórias.


Desejos.


Perdas.


Afetos.


Silêncios.


E, com tudo isso, construo não um universo perfeito, mas um universo possível: aquele em que a tristeza pode existir sem destruir a alegria, em que o pranto pode dividir espaço com o sorriso e em que a dor não precisa apagar o encanto.


Talvez seja esse o segredo da poesia.


Ela não promete que a vida será leve.


Promete apenas que podemos olhar novamente para aquilo que nos feriu e encontrar outro significado.


O que ontem parecia fim pode amanhã revelar uma passagem.


O que parecia vazio pode guardar sementes.


O que parecia desgosto pode, com o tempo, ensinar novamente o gosto da vida.


E a alma, depois de atravessar suas próprias tempestades, talvez não volte a ser a mesma.


Talvez volte mais consciente.


Mais silenciosa.


Mais inteira.


Porque a primavera não nasce negando o inverno.


Ela nasce depois dele.


E quando finalmente chega, não precisa explicar por que demorou.


Apenas floresce.