Talvez meu maior defeito seja essa... Marcela Lobato

Talvez meu maior defeito seja essa necessidade imparável de expressar o que sinto pela arte. Eu não sei fazer uma música "do nada". Não sei ver um filme e criar inspirada em uma história fictícia ou longe da minha realidade. Se não escrevo ou canto, sufoco. E não basta criar, preciso mostrar ao mundo.
As vezes seguro coisas que faço por medo de consequências. Por medo que alguém entenda errado, ou que aquilo machuque alguém que me importa, mas me machucou e gerou aquilo em algum momento. O problema é que sinto que sufoco a cada segundo que seguro algo que precisa ser dito, e não sei o quanto ainda posso resistir segurando tudo isso.
E se quem gerou o que me fez compor ou escrever nunca tivesse acesso ao que fiz, sinto que seria como guardar tudo só pra mim. Não quero atingir, apenas falar. Por muitos anos calei todas as minhas dores. Na infância, sempre fingia estar bem, mesmo quando todos os dias era humilhada em ambientes escolares extremamente hostis. Talvez isso tenha me feito ser assim hoje, e talvez o que chamo de "grande trauma primordial" tenha tido tanta força por isso, me afetando até hoje, em 2026, mesmo que tenha acontecido quase em outra vida, em 2011.
Quando eu escrevo, é porque já não tenho opção. Quando escrevo é porque é isso ou desaparecer. É porque é a única forma de suportar e sobreviver a mim mesma. É porque ou grito, ou deixo o que calei continuar me corroendo por dentro. Eu queria poder ser sincera, e explicar as coisas para quem precisa saber, mas na maior parte do tempo isso não é uma opção, e muitas vezes, tentando me explicar, parece que só consigo estragar tudo de vez.
- Marcela Lobato