ESPELHOS PARTIDOS À BEIRA DO MAR. A... Marcelo Caetano Monteiro

ESPELHOS PARTIDOS À BEIRA DO MAR.
A cena ocorre à beira da praia, numa noite em que a lua se desfaz sobre a água, refletida em pequenos fragmentos de mar como se o próprio céu tivesse quebrado um espelho. O narrador, dilacerado pela ausência, conversa com a amada que já não está entre os vivos e com o filho que o oceano tomou. O vento arrasta vozes indistintas, confundindo-se com o soluço incessante das ondas.
NARRADOR:
Meu filho me amava... Sim, ele verdadeiramente me amava. Agora, diante de nossos espelhos partidos, sorrimos como quem ainda tenta recompor os fragmentos de um impossível. E eu sei... sei que, nesta hora, ele me procura, lá em alto-mar, onde repousam segredos que nenhum de nós ousou desvendar.
AMADA (voz etérea, surgindo entre as rajadas da brisa):
Não chores tanto, meu bem. O mar apenas devolve aquilo que nunca nos pertenceu inteiramente.
NARRADOR:
E que me resta, senão ir buscá-lo? Ele me encantava com aqueles olhos de esmeralda viva... Ah, não partas, meu amor! Se fores, talvez nunca mais me encontres. Foi aqui, nesta praia, que nosso filho te esperou durante quatro noites, sustentado apenas pela fé — essa última lâmpada dos desesperados — de que regressarias.
Mas tu jamais voltaste ao nosso casebre, tão singelo, tão pequeno, e ainda assim aceso pelas chamas de um amor que parecia capaz de desafiar o próprio destino.
AMADA:
A esperança que nele ardeu também me sustentou. Mas o tempo é breve para aqueles que se amam demasiadamente e parece infinito para aqueles que permanecem esperando em silêncio.
NARRADOR (ajoelhando-se na areia):
Por isso te suplico: não vás!
Mas aqueles olhos... Ah, aqueles olhos! Deus os quis para Si antes mesmo que tivéssemos aprendido a compreendê-los. Foram uma dádiva breve, como as flores que desabrocham somente para adornar um instante e, depois, entregam ao vento a sua última fragrância.
AMADA (a voz se afastando, quase confundida com o rumor das ondas):
Então espera...
Espera-me como esperaste o retorno impossível. Espera-me até que as ondas levem a última chama que ainda te arde no peito.
Porque, quando a brisa cessar e a noite recolher seus últimos murmúrios, nós três seremos apenas um só sopro — indivisível, silencioso — respirando eternamente no coração de Deus.
NARRADOR (em lágrimas, contemplando o mar):
Eu esperarei.
Pelo filho que partiu.
Por ti, meu eterno amor.
Esperarei enquanto houver mar, enquanto houver lua, enquanto alguma estrela se atrever a permanecer acesa sobre estas águas.
E, quando a última brisa me levar...
quando a areia apagar meus passos...
quando já não houver voz capaz de chamar por ninguém...
restará apenas o mistério.
E talvez, no centro desse mistério, eu finalmente encontre vocês dois.