A Proposital Queda do Império São... Felipe ARodrigues
A Proposital Queda do Império
São Paulo, 5h10 da manhã.
Aquela bolsa da Bolívia
foi o último presente.
Mas não foi a última prova
do homem que eu fui.
Eu levei nome à pele (literalmente).
Passei noites em claro,
delirando de paixão,
fumando madrugadas
como quem pudesse
queimar o medo de perder.
Eu amava assim:
sem medida,
sem contrato,
sem saída.
Amor, amores.
Bares, aeroportos,
trajetos que ainda guardam
algumas cenas em silêncio.
Velho engano:
procurar permanência
onde só existiu passagem.
Eu fui feito de excessos:
de querer ficar,
de fazer questão,
de transformar pequenos gestos
em grandes acontecimentos.
Talvez ninguém tenha pedido
tanto de mim.
Mas eu sempre fui assim:
quando amava,
erguia catedrais
onde os outros deixavam apenas portas.
Eu amava com o coração
em carne viva,
sem pele para proteger
o que quer que viesse depois.
E talvez seja por isso
que hoje eu pareça tão seco.
Não foi falta de sentimento.
Foi sentimento demais.
Até que veio a queda.
Majestosa.
Porque aquilo não era um castelo.
Era um império.
E impérios daquele tamanho
não caem por falta de amor.
Caem pelo excesso.
Eu amei demais.
Entreguei demais.
Acreditei demais.
E foi justamente pela grandeza
que tudo ruiu.
Agora eu corto.
Os sinais.
Os nomes.
As promessas.
A necessidade de entender.
São Paulo, 5h10.
A cidade ainda fuma.
Eu também.
Só que desta vez
não há incêndio.
Há cinzas.
E até as ruínas
carregam o nome
(que está literalmente tatuado no meu peito
e só poderá sair com laser)
de alguém que hoje está
com outro alguém.
A ironia é quase perfeita:
o nome continua no meu peito,
mas a pessoa já não está comigo.
Ontem, uma nova mulher estrangeira
beijava justamente aquela tatuagem
e perguntou o que significava.
Eu poderia ter contado tudo.
Mas respondi apenas:
“Foi só engano.”
Porque hoje já não é ela.
É só um nome.
E talvez essa seja
a forma mais cruel de permanência:
a pessoa foi embora,
o amor virou passado,
mas a tinta ficou.
Ela encontrou outro alguém.
Eu fiquei com o nome dela.
E essa talvez seja
a parte mais sádica do amor:
ela seguiu com outra história,
enquanto eu carrego na pele
o nome de uma história
que já não existe.
E quando perguntarem
o que aquele nome significa,
talvez eu nem precise explicar:
foi só engano.
