No abismo das águas profundas, a... Celso roberto nadilo

No abismo das águas profundas, a tempestade se converte em desespero e a angústia arrasta a mente ao impensável. Diante da solidão do mar, tudo pode acontecer. Subitamente, flores desabrocham em seres pulsantes — uma linha tênue que se torna a própria fonte do desejo.
​Seres colhidos e arranjados como mero adorno. Seus corpos em decomposição exalam o perfume que seduz, sustentando uma beleza hipnotizante no ápice da existência, até que as pétalas tombam uma a uma, marcando instantes infinitos. A dor que sentem agora já não importa, pois o repouso é inevitável. Mas como questionar a frieza de quem decreta: “Esta já está velha, jogue no lixo. Amanhã compro mais”? É a sinopse exata da nossa profunda desconexão humana.
​O sentimento nasce no peito, mas apodrece a cada segundo. Funciona através de impulsos musculares e oscilações nervosas, instável até o momento em que cessa — afinal, o amor tornou-se clandestino. Nas beiradas da sedução, essa mesma rosa adorna os cabelos de uma mulher que dança na boate. Ao final da noite, a flor jaz pisoteada na lama, ao lado de um cadáver jogado ao acaso, enquanto amantes consomem o prazer logo ali.
​A roseira volta a brilhar na primavera, até que o cortejo fúnebre se aproxime. Várias rosas são arrancadas da terra para conduzir mais uma alma rumo à outra vida. Seríamos felizes se soubéssemos habitar cada instante com verdade, mas preferimos a encenação. No espetáculo comercial do Dia das Mães, filhos que nunca veem os pais surgem trazendo buquês para tapar um abismo sentimental. A celebração se consolida no churrasco que devora as florestas e consome os animais, na bebedeira ruidosa e no brinde vazio. Todos sorriem anestesiados. A natureza agradece e a barbárie sussurra: volte sempre.