O Presente de Natal Num Natal, eu botei... IvoMattos
O Presente de Natal
Num Natal, eu botei na cabeça que ia dar um presente para minha mãe.
Nessa época, eu era engraxate. Lembrei-me disso hoje porque aquele Natal também caiu num domingo.
Na rodoviária de Santa Mariana havia um bazar. Certa vez, eu tinha visto ali uma xícara com uma paisagem de neve. Era aquela xícara que eu queria dar para minha mãe.
Só havia uma.
E eu corria o risco de ela ser vendida.
Pedi ao dono do bazar que a reservasse para mim. Ele sorriu e respondeu:
— Quem chegar primeiro, leva.
Isso foi de manhã, por volta das nove horas. E eu não tinha um único centavo no bolso do calção. Meu calção tinha um bolso, mas naquele momento ele estava vazio.
O dia foi passando e nada de conseguir o dinheiro.
De repente, começaram a aparecer alguns dos meus fregueses tradicionais. Um aqui, outro ali, e algum dinheirinho começou a entrar. Mas ainda era pouco para comprar o presente.
Eu engraxava um par de sapatos e, assim que terminava, ia até o bazar para ver se a xícara ainda estava lá.
Nem fui almoçar naquele dia.
À tarde, eu já tinha conseguido boa parte do dinheiro, mas ainda não era suficiente. Continuava trabalhando e, de vez em quando, passava pelo bazar para pedir ao dono que, por favor, não vendesse a xícara.
No fim do dia, quase na hora de fechar o bazar, eu ainda não tinha conseguido juntar o valor necessário.
Então tomei coragem e pedi:
— O senhor não poderia deixar eu pagar o que falta na próxima semana? Eu engraxaria seus sapatos sem cobrar até completar o dinheiro.
Ele nem pensou.
— Nem pensar — respondeu. — E tem mais: já vendi a xícara.
Fiquei olhando para o chão, com os olhos cheios de lágrimas.
Naquele momento, pensei:
Como é difícil a vida de engraxate.
Se eu tivesse guardado o dinheiro dos outros dias...
Mas aquele dinheiro dos outros dias também fazia parte da receita da família. Vez ou outra, eu comprava carne ou alguma outra coisa para comer e levava para casa.
O que fazer?
Eu tinha chegado tão perto de conseguir comprar aquele presente.
Era para ser uma surpresa para minha mãe. Eu queria que ela ficasse feliz naquele dia de Natal.
Peguei minha caixa de engraxar, que havia deixado do lado de fora do bazar, e levantei-a para colocá-la no ombro.
Foi então que alguma coisa me chamou a atenção.
Havia dentro da caixa um embrulho de papel de presente.
E, pelo formato, parecia uma xícara.
Fiquei sem entender.
Hoje, penso que, enquanto eu estava ali, tentando negociar a compra da xícara, em algum momento aquele homem, Vitor, colocou o pacote dentro da minha caixa de engraxar.
Olhei para ele.
Ele me olhou de volta, com os olhos cheios de lágrimas.
Sorriu.
E me desejou:
— Feliz Natal.
Naquele dia, eu não consegui comprar a xícara.
Mas ganhei algo muito maior.
Ganhei a certeza de que, mesmo quando a vida parece dura demais, ainda existem pessoas capazes de enxergar o coração de um menino.
E aquele menino, que só queria fazer sua mãe feliz, voltou para casa carregando, no ombro, sua velha caixa de engraxate.
Dentro dela, além das escovas e da graxa, levava o mais bonito presente daquele Natal:
um gesto de amor.
