Cesta de Natal Amaral Houve uma época... IvoMattos

Cesta de Natal Amaral

Houve uma época em que o grande charme de Santa Mariana, no final do ano, era comemorar o Natal se deliciando com os produtos que vinham dentro das famosas Cestas de Natal Amaral.

Naquele tempo, eu tinha nove anos e ela era o meu grande sonho de consumo. Sonhava com aquela maravilha.

Havia propaganda nas emissoras de rádio, no alto-falante do Bacarim e nos carros de som que percorriam as ruas da cidade anunciando a bendita cesta. Você podia comprá-la no início do ano e ir pagando mês a mês, até chegar o Natal.

Perto da nossa casa morava uma família de classe alta que havia comprado uma daquelas cestas. E não era qualquer uma: era a maior, a número cinco. Quanto maior o número, maior o tamanho da cesta.

Passei o ano inteiro esperando a chegada do caminhão que faria a entrega.

Meu grande desejo era descobrir se era verdade tudo aquilo que aparecia nas propagandas. Será que dentro daquela cesta havia mesmo todas aquelas maravilhas? Claro, eu precisava primeiro contar com a boa vontade do meu vizinho.

Até que, num belo dia, já no final do ano, eis que chegou o tão esperado caminhão.

Foi uma festa na nossa rua. Moleque para todo lado.

Eu, como morador vizinho, me sentia meio sócio daquele acontecimento. Afinal, tinha acompanhado a espera durante o ano inteiro e, por isso, achava que tinha até o direito de descrever alguns detalhes da famosa cesta.

Naquela noite, depois de uma espera angustiante, finalmente me permitiram olhar dentro daquela coisa linda.

Mas só olhar.

Sem tocar em nada.

Depois de aberta, pude ver enfeites de papel celofane vermelho. Por entre eles apareciam as pontas das garrafas: vinho, espumante, suco de uva...

Havia também castanhas.

Mais para o fundo, os donos começaram a remexer as coisas e, de repente, apareceu, debaixo daquele papel vermelho, uma maravilha. Uma verdadeira obra-prima.

Era uma lata redonda.

Na tampa havia desenhos daquilo que vinha dentro. Eram quatro figuras, em formato de triângulos com as bordas arredondadas.

Não teve jeito.

Pedi para segurá-la.

Relutaram um pouco, mas acabaram deixando. Por alguns segundos, aquela maravilha esteve nas minhas mãos.

E foi o suficiente.

Olhando para aquela lata mágica, deixei minha imaginação viajar. Naquele instante, pude saborear, um pedaço de cada vez, a goiabada, a marmelada, o figo e o marron-glacé — nome que descobri naquela noite e que, para mim, até então, era simplesmente batata-doce.

Alguns dias depois, fuçando pelo entorno da casa do vizinho, meus olhos se depararam com ela.

Ela mesma.

A lata.

Aquela obra-prima estava ali, jogada, vazia, como se fosse uma coisa qualquer.

Fiquei alguns segundos olhando para ela, meio consternado com o fim que tivera.

Para mim, aquela lata ainda carregava todo o encanto do Natal. Para os outros, era apenas uma lata vazia.

Muito tempo depois, alguém da minha família comprou uma lata igual àquela.

Finalmente pude conhecer o sabor daqueles doces.

Mas não era Natal.

E também não era da Cesta de Natal Amaral.

E talvez por isso nunca tenha tido o mesmo gosto.