O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO:... Marcelo Caetano Monteiro

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO:
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
No capítulo XVIII — “Muitos os chamados, poucos os escolhidos”. Ele desenvolve duas grandes ideias de Jesus:
“A quem tem, mais será dado” — não significa privilégio ou favoritismo divino.
“Pelas suas obras é que se reconhece o cristão” - a verdadeira fé se revela pela transformação moral.
Na visão espírita apresentada por Kardec, o ensinamento de Jesus trata principalmente da capacidade espiritual de receber, compreender e multiplicar o bem.
O Espírito amigo, em Bordeaux (1862), explica que aquele que “já tem” é aquele que conquistou uma disposição íntima para a verdade. Não basta possuir conhecimento religioso; é necessário que o indivíduo cultive esse conhecimento no campo do coração. A luz recebida aumenta quando é utilizada.
É semelhante a uma semente: quando lançada em solo preparado, ela germina, cresce e produz frutos. Porém, quando a criatura recebe ensinamentos elevados e não os pratica, a própria negligência faz com que perca a percepção espiritual que poderia desenvolver.
Por isso o texto afirma:
“Não é Deus quem retira daquele que pouco recebera: é o próprio Espírito que, por pródigo e descuidado, não sabe conservar o que tem e aumentar, fecundando-o, o óbolo que lhe caiu no coração.”
A justiça divina, portanto, não é uma punição arbitrária. É uma lei de desenvolvimento espiritual: aquilo que não é cultivado se enfraquece; aquilo que é exercitado se fortalece.
A comparação com o campo herdado do pai é muito significativa. Deus oferece a todos os Espíritos recursos para evoluir: inteligência, consciência, liberdade, oportunidades de aprendizado e crescimento. Mas cabe ao Espírito trabalhar esse patrimônio. O campo abandonado não produz frutos não porque o proprietário lhe retirou a fertilidade, mas porque o agricultor deixou de trabalhar.
No segundo texto, atribuído ao Espírito Simeão (Bordeaux, 1863), encontramos a continuação desse princípio: a autenticidade espiritual não está nas palavras exteriores, mas nas obras.
Jesus já havia ensinado:
“Nem todo o que me diz: Senhor! Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai.”
Kardec ressalta que o Cristianismo é uma árvore divina, plantada pelo Cristo. Entretanto, os homens muitas vezes alteraram seus ensinamentos conforme interesses humanos, “mutilando” seus frutos. A árvore continua boa; o problema está nos jardineiros que não souberam cultivá-la.
Dentro da compreensão espírita, isso significa que a religião verdadeira deve produzir:
renovação moral;
caridade;
humildade;
perdão;
fraternidade;
esforço constante de aperfeiçoamento.
O conhecimento espiritual sem transformação interior torna-se apenas informação. A fé sem obras permanece incompleta.
Por isso a frase “muitos são chamados e poucos escolhidos” não representa uma seleção arbitrária feita por Deus, como se alguns fossem destinados à salvação e outros à condenação. Segundo o Espiritismo, todos são chamados ao progresso; os “escolhidos” são aqueles que escolhem responder ao chamado, trabalhando sobre si mesmos.
O ensinamento central é:
Deus oferece a todos a oportunidade de crescimento, mas cada Espírito decide se cultivará ou abandonará os talentos que recebeu. A luz divina aumenta naquele que a compartilha; a luz se apaga naquele que prefere permanecer na inércia.
Assim, o verdadeiro cristão não é reconhecido pelo nome que carrega, pela posição religiosa que ocupa ou pelas palavras que pronuncia, mas pelos frutos que produz no campo da vida.
Como ensina o próprio Evangelho:
“Pelos frutos os conhecereis.” (Mateus, 7:16)
E, sob a ótica espírita, esses frutos são as conquistas morais que acompanham o Espírito para além da existência física.