Fingir preocupação com asseclas... Alessandro Teodoro

Fingir preocupação com asseclas apaixonados deve ser muito mais fácil do que pregar para convertidos.
Afinal, quem já entregou a própria consciência a uma causa não precisa de argumentos — precisa apenas de viés de confirmação.
Basta oferecer a eles uma narrativa em que seus ídolos continuam virtuosos, seus adversários continuam monstruosos e qualquer contradição pode ser convenientemente rebatizada de “perseguição”.
O problema começa quando a preocupação deixa de ser genuína e passa a ser estratégica.
Quando o sofrimento dos outros só importa se puder ser convertido em combustível para a própria narrativa.
Quando a indignação é seletiva, a compaixão tem lado e a verdade precisa primeiro passar pelo filtro da conveniência.
Há algo profundamente confortável em pregar para convertidos: ninguém ali quer ser realmente convencido de nada…
Quer apenas ouvir, mais uma vez, aquilo em que já decidiu acreditar.
Talvez por isso seja tão difícil reconhecer a manipulação quando ela vem embalada em preocupação.
Porque o discurso não precisa mais conquistar a razão — basta acariciar a paixão.
E quando a paixão assume o lugar da consciência, qualquer um pode se apresentar como salvador, inclusive aquele que ajudou a construir o cativeiro do qual agora promete libertar os seus.
