CLADISSA - ROMANCE. CAPÍTULO XI A... Marcelo Caetano Monteiro
CLADISSA - ROMANCE.
CAPÍTULO XI
A CATADUPA.
A notícia do que acontecera na praça espalhou-se pelas aldeias vizinhas como fogo em palha seca. Não demorou três dias para que a versão chegasse aos ouvidos de Raniero di Montefalco, e quando chegou, não veio como relato — veio como afronta.
O escriba Gualtiero apresentou-se diante do senhor feudal com o pergaminho em branco e a dignidade em frangalhos. Disse que uma camponesa o enfrentara. Disse que uma voz saíra daquela mulher que não era humana. Disse que seus próprios soldados haviam recuado.
Raniero não acreditou na voz. Acreditou na desobediência.
Enviou desta vez não três cavaleiros, mas doze homens armados, sob o comando de Enzo di Gracco, capitão de confiança, homem de mandíbula quadrada e olhos que não conheciam hesitação. Trazia consigo uma ordem selada: registrar as mulheres, prender quem resistisse, e se necessário, fazer da aldeia um exemplo.
Chegaram ao amanhecer de um sábado, quando a névoa ainda cobria os campos e o sino da igreja ainda não tocara.
Cladissa estava na casa de Teodora.
A velha adoecera na noite anterior. Uma febre súbita, acompanhada de tremores que lhe sacudiam o corpo como se mãos invisíveis a chacoalhassem. As netas choravam num canto. Marta tentava aplicar panos úmidos na testa da anciã, mas Teodora já não respondia. Seus olhos estavam abertos, vítreos, fixos num ponto que ninguém mais via.
— Ela está a morrer — sussurrou Giovanna, encostada à parede com os braços cruzados, mas desta vez sem ceticismo. Com medo.
Cladissa ajoelhou-se ao lado do leito. Tomou a mão de Teodora entre as suas. A pele da velha era fria como pedra de rio no inverno.
— Teodora... estou aqui.
Nenhuma resposta.
Foi então que ouviram os cavalos.
O som dos cascos sobre a terra batida chegou primeiro como vibração no chão, depois como trovão crescente. Beatrice correu à janela.
— São muitos. Muito mais do que da outra vez.
Marta empalideceu. As filhas de Pietro agarraram-se uma à outra. Giovanna cerrou os punhos.
Cladissa não se moveu. Permaneceu ajoelhada junto a Teodora, com os olhos fechados, como se o mundo lá fora pudesse esperar.
Mas o mundo não esperou.
A porta da casa foi aberta com um chute. A madeira velha estilhaçou-se contra a parede. Dois soldados entraram com as espadas embainhadas mas as mãos nos punhos. Atrás deles, Enzo di Gracco curvou-se para passar pela porta baixa, e quando se ergueu dentro daquela casa de camponeses, sua presença encheu o espaço como uma sombra que engole a luz.
— Qual de vós é a que fala com voz de demônio?
Ninguém respondeu.
Enzo percorreu o cômodo com o olhar. Viu as mulheres amontoadas. Viu a velha no leito. Viu Cladissa ajoelhada.
— Tu. — Apontou para ela. — Levanta-te.
Cladissa abriu os olhos. Ergueu-se devagar, sem soltar a mão de Teodora.
— Solte a velha e venha comigo.
— Esta mulher está a morrer. Não a deixarei.
Enzo deu dois passos largos e agarrou Cladissa pelo braço. Puxou-a com força suficiente para arrancá-la do chão. Ela tropeçou, bateu com o ombro na parede, mas não gritou. Endireitou-se e fitou o capitão com aqueles olhos que, segundo os aldeões, contemplavam horizontes invisíveis aos demais.
— Então és tu a bruxa que enfeitiçou os meus homens.
— Não sou bruxa. Sou Cladissa.
— Cladissa. — Ele repetiu o nome como quem mastiga algo amargo. — Pois bem, Cladissa. O senhor Raniero di Montefalco ordena que todas as mulheres solteiras desta paróquia se apresentem para registro. Tu recusaste. Impediste o trabalho do escriba. Ameaçaste os soldados com feitiçaria.
— Não ameacei ninguém. Pedi que nos lessem o documento.
O tapa veio sem aviso. A mão aberta de Enzo atingiu-lhe o rosto com força que a fez girar. Cladissa caiu de joelhos. O gosto de sangue encheu-lhe a boca. Um fio vermelho escorreu pelo canto dos lábios.
Marta gritou. Beatrice cobriu os olhos. Giovanna avançou um passo, mas o soldado mais próximo empurrou-a de volta contra a parede com o antebraço no peito.
— Alguém mais quer falar? — perguntou Enzo, olhando ao redor. — Alguém mais quer pedir que lhe leiam documentos?
O silêncio que se seguiu era o silêncio do terror. O tipo de silêncio que os poderosos conhecem bem e cultivam com esmero.
Cladissa permaneceu de joelhos. O sangue pingava do lábio partido sobre o chão de terra batida. Suas mãos estavam abertas sobre as coxas, as palmas voltadas para cima, como na posição de quem ora.
Mas não orava.
Ou talvez orasse de uma forma que nenhuma liturgia jamais descrevera.
Enzo agarrou-a pelos cabelos. O pano de linho que os cobria arrancou-se, e os cabelos escuros caíram sobre os ombros. Ele a forçou a erguer o rosto.
— Olha para mim, mulher. Olha bem. Eu não sou o escriba covarde que fugiu da tua voz de teatro. Eu sou Enzo di Gracco. Servi em três campanhas. Matei homens que valiam mais do que toda esta aldeia junta. Achas que me assustas com os teus truques?
Cladissa olhou para ele.
E algo aconteceu nos seus olhos.
Não foi a claridade gradual do encontro anterior — aquela que começara nos olhos e descera para as mãos e depois para a voz. Desta vez foi instantâneo. Como um relâmpago que não precisa de nuvem. Como uma porta que se abre de par em par quando alguém a arromba do outro lado.
A voz que saiu de Cladissa não era a voz serena do encontro com o escriba. Era a mesma autoridade, mas agora carregava algo mais. Carregava fúria sagrada. A fúria de quem vê a injustiça não como conceito, mas como ferida aberta no corpo de alguém que ama.
— Solta-a.
Enzo largou os cabelos dela. Não por obediência. Seus dedos simplesmente se abriram, como se a própria carne recusasse o contato.
— Solta todas elas.
O capitão recuou um passo. Seus olhos, que nunca haviam conhecido hesitação, agora piscavam rápido, como os de um homem que tenta enxergar através de uma luz forte demais.
— Que diabo...
— Não há diabo aqui. — A voz era firme como rocha e suave como água ao mesmo tempo, uma impossibilidade que nenhum dos presentes conseguia reconciliar. — Há apenas a verdade que vos recusais a ouvir.
Cladissa levantou-se. O sangue ainda escorria do lábio, mas ela não o limpou. Ficou de pé no centro daquela casa pobre, entre mulheres aterrorizadas e soldados armados, e a sua presença encheu o espaço de uma forma que não tinha nada a ver com tamanho físico.
— Viestes com doze homens para registrar sete mulheres. Doze espadas para sete nomes. Que proporção é essa? Que justiça exige armadura para contar almas?
Enzo tentou falar. Abriu a boca. Nenhum som saiu.
— O vosso senhor quer um censo. Pois eu vos digo o que nenhum censo registra. — Cladissa caminhou até o leito de Teodora. — Esta mulher tem setenta e três anos. Trouxe ao mundo onze filhos. Enterrou oito. Sobreviveu a três epidemias, dois invernos de fome e à morte do marido, que caiu de um telhado que consertava para que outros tivessem abrigo. Ela conhece cada erva destas colinas. Curou mais gente do que qualquer médico que o vosso senhor jamais pagou. E agora jaz aqui, a morrer, enquanto vós arrombais a porta da casa dela para perguntar se há mulheres disponíveis.
O soldado que segurava Giovanna contra a parede afastou o braço. Não porque alguém lhe ordenasse. Porque a vergonha é uma força que, quando desperta, move o corpo antes da mente.
Cladissa ajoelhou-se novamente junto a Teodora. Desta vez, colocou ambas as mãos sobre o peito da velha. Fechou os olhos.
O que aconteceu a seguir, cada pessoa presente descreveria de forma diferente pelo resto da vida.
Marta diria que viu uma luz dourada envolver as mãos de Cladissa, como se o próprio sol tivesse descido para dentro daquela casa.
Beatrice diria que sentiu um calor no peito, como se alguém a abraçasse por dentro.
Giovanna, que durante anos se recusaria a falar do assunto, admitiria apenas que o ar mudou. Que de repente não cheirava a doença e suor, mas a lavanda e terra molhada depois da chuva.
Os soldados diriam, entre si e nunca diante de Raniero, que a temperatura do cômodo subiu como se alguém tivesse acendido uma fogueira invisível.
Enzo di Gracco não diria nada. Nunca. A ninguém.
Mas todos viram a mesma coisa.
Teodora abriu os olhos.
Não os olhos vítreos e perdidos de antes. Olhos lúcidos. Olhos presentes. Olhos que reconheciam o mundo e escolhiam permanecer nele.
A velha inspirou profundamente, como quem emerge de águas escuras. A cor voltou-lhe ao rosto. Os tremores cessaram. As mãos, que estavam rígidas como garras, relaxaram-se sobre o peito.
— Cladissa... — sussurrou Teodora. — Estavas aqui.
— Sempre estive, Teodora.
A velha olhou ao redor. Viu os soldados. Viu Enzo. Viu o sangue no lábio de Cladissa. E nos seus olhos antigos acendeu-se algo que não era medo nem surpresa. Era a mesma chama tranquila que Anselmo vira naquela menina décadas antes.
— O que fizeram contigo, menina?
— Nada que não se cure, Teodora. E o que fizeram consigo?
A velha sentou-se no leito. Sozinha. Sem ajuda. As netas correram para abraçá-la, chorando. Marta caiu de joelhos e benzeu-se três vezes. Beatrice soluçava com as mãos sobre a boca.
Enzo di Gracco olhava para Cladissa como quem olha para o fogo pela primeira vez e compreende, num instante, que aquilo pode aquecer ou consumir, e que a diferença não depende do fogo, mas de quem se aproxima.
— Quem és tu? — perguntou o capitão, e pela primeira vez na vida a sua voz não carregava comando. Carregava pergunta genuína.
A voz que não era inteiramente de Cladissa respondeu pela última vez.
— Sou a resposta à oração que nunca fizeste. Sou o espelho que mostra o rosto que escondes de ti mesmo. Sou a catadupa que prometemos. E digo-te, Enzo di Gracco: cada golpe que deres numa inocente cairá sobre a tua própria casa. Cada nome que registrares como posse será cobrado na moeda que mais temes. Não a moeda do ouro. A moeda da consciência.
Enzo recuou até à porta. Os soldados já estavam do lado de fora. Alguns haviam montado nos cavalos sem esperar ordem.
Então a presença recolheu-se.
Cladissa cambaleou. Giovanna correu para segurá-la. Marta trouxe água. Beatrice limpou-lhe o sangue do rosto com o mesmo pano que minutos antes usara para a febre de Teodora.
Cladissa bebeu a água devagar. Suas mãos tremiam. O lábio doía. O ombro latejava onde batera na parede. Mas dentro do peito, naquele lugar onde a fé mora quando já não cabe em palavras, havia uma paz que não combinava com nada do que acabara de acontecer.
Enzo permaneceu na porta. Não entrou novamente. Não deu ordens. Ficou ali, com a mão no batente da porta que ele próprio arrombara, olhando para aquela mulher ensanguentada que acabara de curar uma moribunda e enfrentar doze homens armados sem erguer um único punho.
— Isto não acabou — disse o capitão, mas a voz saiu fraca, como uma ameaça que já nasce sabendo que é mentira.
— Não — respondeu Cladissa, agora com a sua própria voz, rouca e cansada e humana. — Não acabou. Mas não será como pensas.
Enzo montou no cavalo e partiu. Os doze homens seguiram-no em silêncio. Nenhum olhou para trás.
Na casa de Teodora, as mulheres permaneceram juntas até o anoitecer. Ninguém falou durante muito tempo. Teodora, sentada no leito com as netas ao colo, olhava para Cladissa com uma expressão que misturava gratidão, reverência e algo que se parecia com pena — porque a velha, que já vira o nascimento e a morte de todas as coisas, sabia que aquele dom não vinha sem preço.
Foi Giovanna quem finalmente falou. A mesma Giovanna que cruzara os braços com ceticismo na primeira reunião. A mesma que se recusara a acreditar em qualquer coisa que não pudesse tocar com as mãos.
— Cladissa... o que tu fizeste... — A voz falhou-lhe. Engoliu em seco. — Eu vi. Eu vi e não consigo explicar. E tenho medo. Não de ti. De mim. Porque se isto é verdade, então tudo o que eu acreditava sobre o mundo está errado.
Cladissa olhou para ela com olhos cansados.
— Não está errado, Giovanna. Está incompleto.
A noite caiu sobre a aldeia como um manto pesado. Cladissa caminhou sozinha até a igreja. Entrou. Ajoelhou-se diante da lamparina. O lábio ainda sangrava levemente. O ombro doía a cada respiração.
Mas não orou por si mesma.
Orou por Enzo di Gracco.
Orou pelo homem que a esbofeteara, que a agarrara pelos cabelos, que arrombara a porta de uma casa onde uma velha morria. Orou por ele porque, no instante em que a presença falara através dela, Cladissa vislumbrara algo que ninguém mais vira: dentro daquele capitão de mandíbula quadrada e olhos sem hesitação, havia um menino que chorava. Um menino que fora obrigado a matar antes de aprender a viver. Um menino que enterrara a própria bondade tão fundo que já não sabia onde a deixara.
— Senhor... não o destruas. Encontra-o.
A lamparina ardeu firme.
Do lado de fora, o vento soprava entre as casas de pedra, e nas colinas da Úmbria, sob um céu sem lua, algo se movia. Não era exército. Não era tempestade. Era mais silencioso e mais inevitável do que ambos.
Era a catadupa.
E ela apenas começara.
