Onde ainda existe um filho Mãe, há... KANGAL
Onde ainda existe um filho
Mãe,
há palavras que nunca encontrei coragem para te dizer,
porque algumas dores respiraram em silêncio.
Talvez a senhora nunca tenhas percebido,
mas passei tantos anos tentando ser forte
que um dia deixei de saber como era simplesmente ser filho.
As pessoas olham para mim
e enxergam alguém que suporta tudo.
Não sabem que existe uma diferença
entre ser forte
e esquecer o sentir.
Eu sobrevivi a muitos naufrágios,
mas sobreviver não é o mesmo que viver.
Dentro de mim ainda existe um menino
sentado na beira de um sonho desfeito, assim como quando eu era uma criança e ficava sentado na porta de casa esperando um copo de açaí e, às vezes não tinha.
Eu imaginava que, antes dos vinte e três,
teria uma esposa para amar,
um filho para abraçar,
uma casa cheia de risos
e um trabalho que te fizesse dizer, com orgulho:
"Esse é o meu filho."
O tempo passou.
Os sonhos ficaram para trás.
E eu continuei andando,
como quem atravessa a noite
sem saber onde nasce as manhãs.
Às vezes me pergunto
se tu consegues enxergar
o quanto lutei, sangrei e chorei sem fazer barulho ? Talvez, nunca tenha visto!
As minhas batalhas
não deixaram sangue no chão.
Elas deixaram silêncio no ar.
Deixaram cansaço ofegante ao respirar.
Deixaram um vazio tão profundo
que nem as lágrimas conseguem alcançar.
Não escrevo estas palavras
para te fazer sentir culpa, muito menos pena ou que penses que sou apenas uma criança vaidosa.
A vida também foi dura contigo.
Sei que carregaste pesos
que eu jamais poderei compreender.
Mas existe uma prece
que nasceu do lugar mais escondido da minha alma.
Olha para mim!
Não como o homem que ainda não venceu ou como um estorvo desempregado,
mas como o filho
que nunca deixou de tentar.
Não me mede apenas pelos objetivos que não alncansei.
Olha para aqueles que ainda me recuso a abandonar.
Porque, mesmo quando tudo dentro de mim dizia para desistir,
eu continuei respirando.
Mesmo quando a esperança parecia morrer,
eu escondia uma pequena chama
para que ninguém a apagasse.
Mãe...
Se algum dia sentiste orgulho de mim,
não deixes esse orgulho morrer em silêncio, em desprezo.
Às vezes, uma única palavra tua
vale mais do que cem vitórias.
Às vezes, um abraço
reconstrói o que anos de solidão destruíram.
Eu não preciso de alguém
que caminhe por mim.
Só preciso saber
que existe um lugar no teu coração
onde eu ainda posso descansar
sem precisar provar que sou forte.
Porque a verdade é esta:
Os homens aprendem a esconder as lágrimas,
mas nunca deixam de precisar da sua mãe.
E se ainda existe luz para mim,
ela começa no instante
em que teus olhos voltarem a me enxergar
não pelos fracassos que vivi,
mas pelo filho
que, mesmo quebrado,
ainda escolhe lutar.
Enquanto meu coração bater,
a esperança não estará morta.
Ela apenas estará esperando
que alguém a chame pelo nome.
E eu gostaria,
mais do que qualquer outra coisa,
que esse alguém fosses a senhora.
