Houve um tempo em que a riqueza de um... GabrieldeArruda
Houve um tempo em que a riqueza de um povo era medida por aquilo que tirava da terra. Arrancaram madeira das matas, ouro das montanhas, café dos campos. Parecia que toda prosperidade dependia de retirar alguma coisa do mundo até deixá-lo mais pobre.
Agora a extração é outra.
Já não se arrancam apenas árvores, metais ou colheitas. Arranca-se a alma sem tocar no corpo. Arranca-se atenção, desejo, memória, gosto. Arranca-se significado.
Já não basta vender um pão. Vende-se a fome.
Já não basta vender uma canção. Fabrica-se o ouvido incapaz de suportar o silêncio.
Já não basta oferecer um caminho. Ensina-se o viajante a esquecer para onde ia.
Há uma crueldade nova nesse mecanismo. As prisões antigas cercavam o corpo. As prisões de agora cercam a vontade. Descobriu-se que o homem deixa de resistir muito antes de deixar de obedecer. Basta que já não consiga desejar por si mesmo.
A cultura foi sendo reduzida a uma superfície. As cores rarearam. As formas se comprimiram. A beleza tornou-se um luxo. E o mundo, que durante milênios pediu contemplação, passou a exigir apenas eficiência.
O mais inquietante é que quase nada nos foi arrancado à força. Fomos cedendo. Um hábito de cada vez. Uma renúncia de cada vez. As maiores perdas raramente fazem barulho.
Talvez essa seja a pobreza mais profunda do nosso tempo. Não a falta de dinheiro, mas a falta de espanto. Porque um povo não desaparece quando perde suas riquezas. Desaparece quando perde a lembrança do que era digno de ser amado. A morte de uma civilização começa muito antes de sua ruína. Começa no dia em que já não reconhece como sua a própria voz.
O maior triunfo do nosso tempo não foi ensinar as máquinas a criar. Foi convencer os homens de que criar já não era necessário. Bastaria consumir. Repetir. Reagir. Ajustar-se. Bastaria permanecer dentro do fluxo.
A natureza nunca fez duas árvores iguais. O mercado, ao contrário, passa a vida tentando convencer o mundo de que uma única forma basta para todas as florestas.
Mas a beleza continua sendo uma forma de rebeldia. A arte continua sendo uma forma de desobediência. E toda civilização que esquece isso começa a extrair de si mesma a última riqueza que possuía. Não o ouro. Não a terra. Nem a técnica.
A capacidade de sentir que era única.
