A Oficina dos Dias Somos retalhos de... Rô Montano

A Oficina dos Dias

Somos retalhos de vivências
alinhavados pelo tempo, sem pressa.
Cada um carrega no avesso do pano
o mapa de uma guerra, o sal de uma promessa.

Não nascemos inteiros. Fomos feitos
na oficina de perdas e achados.
Um pedaço veio do primeiro tombo;
outro, do beijo que ficou calado.

Buscamos sinais no passado
como arqueólogos de nós mesmos.
Escavamos a argila da memória
para entender o molde do que tememos.

E o que achamos? Um baú sem chave,
onde o riso dorme ao lado do pranto;
onde o nome que não dissemos
ainda ecoa num quarto.

Reciclamos paixões, sim.
Somos mestres em alquimia tardia.
Pegamos a cinza de um amor que não vingou
e fazemos dela nova poesia.

Tiramos do mar do esquecimento
náufragos que julgávamos mortos:
uma carta, um cheiro, uma música antiga,
e o peito vira cais, vira porto.

Nos deleitamos com as lembranças
não por fraqueza de quem não anda,
mas porque toda raiz precisa
da água escura que a expande.

Guardadas na alma, elas fermentam:
são vinho velho em pipa de osso.
Quando a vida aperta a garganta,
um gole de ontem desfaz o nó grosso.

Injetamos vida no que foi
com a agulha da insistência.
Ressuscitamos instantes banais
e os coroamos de transcendência.

Porque viver não é linha reta:
é espiral que volta e avança.
O menino que fomos nos olha
e cobra do homem a mesma esperança.

Somos feitos de fins que viraram meio,
de adeuses que aprenderam a voltar.
Cada cicatriz é uma costura
onde a luz resolveu morar.

E se alguém perguntar do tecido
que veste a nossa humanidade,
responde: é colcha de mil histórias,
remendada com dor, com fé, com saudade.

No fim, quando o corpo cansar
e a linha da vida se romper,
que nos enterrem com essa colcha:
pois fomos tudo o que deu para ser.