Sinfonia do Silêncio Ah... o café... Ana Gelma N.L

Sinfonia do Silêncio


Ah... o café desperta primeiro que o dia.


Seu aroma percorre a casa
como se conhecesse cada lembrança
que ainda mora em mim.


A madrugada continua acordada.
A chuva escreve no telhado
aquilo que o mundo nunca aprenderá a dizer.
Cada gota toca o chão
com a delicadeza de quem sabe
que até o silêncio tem som.


Há uma música baixa.
Ou talvez seja apenas a chuva
inventando notas
que nenhum instrumento alcança.


E eu...
permaneço aqui.


Com os pensamentos soltos,
não porque estejam perdidos,
mas porque algumas verdades
não suportam ser aprisionadas.


Escrevo.


Não para que me leiam,
mas para que minha alma
não se esqueça de quem é.
Há quem faça barulho para existir.
Eu aprendi a existir no silêncio.


Foi nele que encontrei respostas,
que reconheci partidas necessárias,
que compreendi que algumas presenças
só sabiam permanecer
enquanto lhes era conveniente.


Hoje já não me entristece.


Assim como a chuva não pede licença para cair,
também aprendi
que a vida não pede permissão
para ensinar.


O café esfria.
A chuva continua.
A música permanece.


E eu sigo escrevendo.
Porque existem madrugadas
em que Deus não responde com palavras.


Responde com o perfume do café,
com a chuva lavando os excessos da alma,
com o silêncio que fortalece,
e com a serenidade de quem já não precisa provar quem é.


Há uma paz que só encontra
quem teve coragem de caminhar sozinho.
E, desde então,
cada página que escrevo
não é apenas tinta sobre papel.


É a minha própria alma
aprendendo a florescer
mesmo nos dias de chuva.
Sendo assim, sigo na silenciosa sinfonia.