Reino de Ontem Abraços que ficaram... Danyllo Formiga

Reino de Ontem

Abraços que ficaram suspensos no ar,
beijos que o tempo, teimoso, não conseguiu roubar.
E aquele tremor da primeira vez —
coração batendo mais forte que os pés no chão de terra.

Éramos artesãos de brinquedos e de sonhos,
as mãos calejadas de pião e linha de pipa.
O vento era nosso cúmplice,
e o céu, um quintal sem cerca.

Corremos com os irmãos até a rua virar infinita,
o riso ecoando mais alto que qualquer sino.
Veio a noite, veio a lua,
e a escuridão era só um jeito diferente de clarear.

Futebol descalço nos paralelepípedos quentes —
a liberdade cabia inteira na sola do pé.
Não havia lei, não havia relógio,
só o doce gosto de descobrir o mundo
a cada gol gritado com a alma.

Esconde-esconde atrás do tempo,
bicicleta girando estradas que não tinham fim.
Nada pesava. Nada doía.
Só existia o agora, e o agora era eterno.

Hoje a saudade me visita sem avisar.
Senta comigo no meio-fio da memória
e me devolve o cheiro da terra molhada,
o som do pião dançando,
o calor da infância que eu não quero —
que eu não posso — deixar.

Infância: meu reino, minha primeira pátria.
E eu, exilado do tempo,
ainda volto pra brincar.