Raiz e Espinho Nasci com a pele que... Fialho10

Raiz e Espinho
Nasci com a pele que carrega o sol dentro,
mas me ensinaram que o sol queima demais,
que eu era forte demais, que eu sentia de menos, que eu precisava ser muro antes de aprender a ser menina.
Ninguém me disse que eu podia chorar sem parecer fraca.
Ninguém me ensinou a receber colo sem primeiro merecer
Cresci achando que ternura era um luxo de outra raça, que amor suave era coisa que acontecia
do outro lado da calçada.
Me fizeram armadura antes de me deixar ser pele.
Sou mãe que levanta às cinco e dorme depois da meia-noite, que sabe o nome de cada professor do filho
e esqueceu o nome da própria vontade.

Sou filha que aprendeu a não perguntar muito,
porque a mãe também não sabia responder
também estava carregando pedra e chamando isso de destino.
Sou empresária que precisa provar duas vezes, sorrir quando questionam, vestir a armadura antes da reunião, e mesmo assim ouvir: "você chegou até aqui"
- como se fosse sorte.
Como se não fosse sangue.
Me chamam de forte
toda vez que não me permitem ser frágil.
Me chamam de rainha toda vez que precisam de algo que aguente.
Mas rainha também chora no banheiro.
Rainha também tem medo.
Rainha também queria, uma vez só, que alguém chegasse antes dela e dissesse: eu cuido disso.
O racismo não veio sempre gritando.
Veio no currículo sem resposta.
Veio no cabelo que "não era adequado".
Veio na surpresa do outro quando eu falei bem,
como se inteligência fosse exceção no meu corpo.
Veio na mão que segurou a bolsa, no elevador que preferiu esperar, no elogio que era ofensa disfarçada de gentileza.
E eu aprendi a engolir porque reagir custava mais do que eu podia pagar.
Mas há algo em mim que não foi ensinado - e por isso sobreviveu.
Uma memória no osso.
Uma canção que não tem letra mas que meu corpo sabe dançar.
A força que ninguém me deu porque nasceu comigo, dobrada nas mãos da minha avó, escondida na risada da minha mãe,plantada na teimosia das que vieram antes
e não pediram licença pra existir.
Eu não quero mais ser forte assim.
Quero ser forte como árvore - que tem raiz, que tem sombra, que também precisa de chuva e não tem vergonha de dobrar no vento.
Quero aprender o que não me ensinaram:
que meu descanso não é preguiça, que minha dor não é fraqueza, que eu posso ocupar espaço sem pedir desculpa por existir.
Sou preta.
Sou mãe, filha, empresária, sonho, cicatriz.
Sou tudo que tentaram diminuir e tudo que sobrou depois disso.
Sou o que resiste.
Sou o que floresce.
E estou aprendendo, finalmente que essas duas coisas podem morar no mesmo corpo.
No meu corpo...
No meu corpo.