Há momentos em que a vida nos apresenta... Samantha Mendes
Há momentos em que a vida nos apresenta provas que parecem simples à primeira vista, mas que na verdade nos levam a percorrer caminhos profundos dentro de nós mesmos. Hoje vivi um desses momentos, guiado por alguém que carrega em si a sabedoria de quem já viveu muito e aprendeu a enxergar muito além do que os olhos podem ver. Ele nos propôs uma tarefa que, ao início, parecia apenas um exercício de pensamento, mas que se revelou um caminho de autoconhecimento necessário e até delicado. Para poder avançar e compreender o que ele queria nos ensinar, era preciso voltar o pensamento a uma pessoa que cruzou a nossa estrada e deixou marcas importantes.
Essa pessoa tinha uma certa afinidade conosco, uma maneira de ver o mundo que por vezes se aproximava da nossa, como se certas ideias e sentimentos encontrassem um terreno comum. Mas ao mesmo tempo, essa convivência foi marcada por muitos desencontros. Houveram dias em que a impulsividade falou mais alto, em que palavras duras foram ditas, feridas foram causadas e atos que depois trouxeram arrependimento profundo. No entanto, havia algo muito especial na presença dessa pessoa: uma calma que não se abalava facilmente, um silêncio que não era de distância, mas de compreensão, e uma disposição constante para perdoar sem fazer alarde, sem cobrar, sem guardar ressentimentos. Mesmo quando parecia que cada um seguiria o seu caminho de vez, havia uma serenidade que esperava, como se soubesse que os caminhos podem se reencontrar e que a paz vale mais do que a razão.
Ao voltar todo o pensamento para essa pessoa, refletindo tanto sobre os momentos bons quanto sobre os difíceis, uma verdade muito importante se revelou. Nunca seremos capazes de saber, com total certeza, o que se passa no coração e na vida de outra pessoa. Não conhecemos os pesos que cada um carrega, as dores que guarda, os medos que não revela, nem a forma como aprendeu a lidar com os próprios sentimentos. Cada ser humano vive a sua própria jornada e desenvolve o seu jeito de ser. Alguns sabem expressar o que sentem com facilidade, outros se calam por insegurança, outros esperam o momento certo, e outros ainda demonstram de formas que não conseguimos entender de imediato. Não temos o direito de julgar ninguém sem conhecer toda a sua história, nem podemos exigir que os outros pensem, sintam ou ajam exatamente como nós.
A lição mais profunda que recebi é que, na maior parte das vezes, quando ferimos alguém, quando falamos palavras que machucam ou agimos com dureza, isso não acontece por causa da outra pessoa. É um reflexo do que está faltando dentro de nós mesmos. É a falta de amor por nós mesmos, a ausência de carinho com a nossa própria alma, a falta de cuidado e compreensão para com os nossos próprios sentimentos que acaba se projetando para fora. Não conseguimos oferecer ao mundo aquilo que não cultivamos dentro de nós. Mesmo que em algum momento tenhamos nos sentido feridos ou incompreendidos, a maneira como reagimos e tratamos os outros continua sendo uma escolha que nasce do nosso próprio coração.
E existe outra verdade muito grande que ficou clara: viver não é apenas sobreviver. Muitas vezes passamos pelos dias como se estivéssemos apenas resistindo às dificuldades, esperando que os momentos difíceis passem logo. Mas a vida não é feita só de aguentar. Dias ruins virão, sim, obstáculos aparecerão, e coisas difíceis vão acontecer com todos nós. Mas a nossa missão não é apenas passar por eles como quem espera a tempestade acabar. A nossa missão é viver tudo isso com dignidade, com coragem e com bondade. É encontrar sentido mesmo nos momentos mais escuros, é aprender com cada passo e manter a nossa essência, não importa o que aconteça. Sobreviver é apenas existir; viver é sentir, é aprender, é crescer e espalhar o bem.
Também compreendi algo fundamental: por mais que haja carinho, compreensão e aceitação vindos de fora, por mais que alguém nos receba como somos e nos perdoe quando erramos, nada disso é suficiente se não aprendermos a nos amar primeiro. O amor que recebemos dos outros é um apoio lindo e valioso, mas ele não consegue preencher o vazio que existe quando não nos aceitamos e não nos valorizamos. Só quando aprendemos a nos tratar com gentileza, a compreender os nossos próprios limites e a nos amar de verdade é que conseguimos estar em paz e agir com bondade com todos ao nosso redor.
Saio dessa experiência com o coração cheio de gratidão. Gratidão pela sabedoria compartilhada, pela oportunidade de olhar para dentro e compreender melhor os meus próprios atos, e por ter conhecido alguém que, mesmo nos desencontros, ensinou com o exemplo o valor da calma e do perdão. Que possamos sempre buscar o equilíbrio entre os nossos pensamentos e as nossas ações, que a gentileza seja o caminho que escolhemos seguir todos os dias, e que nunca esqueçamos: para viver de verdade, é preciso primeiro aprender a amar a si mesmo.
