A CASA DO CAMINHO É A TUA LUZ INTERIOR.... Marcelo Caetano Monteiro

A CASA DO CAMINHO É A TUA LUZ INTERIOR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O gadareno estava cego.
Não a cegueira dos olhos da carne, que já havia deixado para trás com o corpo abandonado na Terra. Era uma cegueira diferente, feita de saudades, de espanto e de esperança. Havia despertado além da morte e caminhava por estradas que não conhecia.
Procurava uma casa.
Uma casa que ouvira mencionar muitas vezes nas regiões espirituais. Diziam que ali habitava a mais sublime de todas as mulheres. Aquela cujo coração fora berço do Cristo. Aquela que os aflitos chamavam simplesmente de Mãe.
Maria.
Por isso caminhava.
Procurava a residência da ternura, o lar da compaixão, a morada da misericórdia.
Mas, quanto mais procurava, mais se perdia.
Foi então que ouviu passos.
Não viu quem se aproximava.
A cegueira ainda o envolvia.
Contudo, quando a voz rompeu o silêncio, algo estremeceu dentro dele.
Ah, aquela voz...
Aquela voz não era apenas um som.
Era um hino.
Era uma lembrança.
Era uma luz.
Era a mesma voz que, séculos antes, atravessara os gritos da loucura e alcançara o homem que vivia entre os sepulcros.
A mesma voz que ordenara às sombras que se retirassem.
A mesma voz que lhe devolvera a dignidade perdida.
O gadareno caiu de joelhos.
Não precisava enxergar.
Reconheceu.
— Senhor...
O Cristo sorriu.
E o velho peregrino, agora Espírito, perguntou:
— Mestre, procuro a Casa do Caminho. Procuro a morada onde se encontra Maria. Procuro essa residência desde que despertei deste lado da vida.
Jesus o contemplou em silêncio.
Depois apontou para o próprio peito do gadareno.
— Ela está aí.
O homem não compreendeu.
Então percebeu.
Havia uma porta.
Sempre existira.
Uma porta luminosa.
Uma porta que se abria para dentro e para fora ao mesmo tempo.
Mas ele jamais entrava.
Jamais saía.
Permanecia diante dela, indeciso, como quem teme descobrir aquilo que procura.
— Senhor, onde está a chave?
O Mestre aproximou-se.
Seus olhos continham a serenidade das manhãs eternas.
Sua voz tinha a suavidade das águas tranquilas.
Então respondeu:
— A chave é a paz.
E acrescentou:
— A paz que nasce da confiança. A paz que floresce do perdão. A paz que aprende a amar sem exigir. A paz que um dia coloquei em teu coração.
Nesse instante, o gadareno compreendeu.
A Casa do Caminho não era um lugar distante.
Não estava escondida em alguma esfera inacessível.
Era um estado da alma.
Era o reino interior que o amor de Deus edificava silenciosamente desde o primeiro encontro com o Cristo.
A porta abriu-se.
A luz inundou tudo.
E lá estava ela.
Maria.
Mas antes que pudesse avançar, percebeu outra presença.
Alguém já o aguardava à entrada.
O mesmo Mestre.
Porque toda estrada da alma, cedo ou tarde, termina onde começou:
Nos braços daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
E o gadareno finalmente entrou em casa.