A aurora derramava sinos líquidos sobre... Monalisa Ogliari
A aurora derramava sinos líquidos sobre os jardins do horizonte. Eu me via cada vez mais longe. O silêncio demorava lentamente os excessos do tempo, que era farto alimento de futuro. As sombras vestiam túnicas de safira e esquecimento. Era um momento solene. A memória recolheia as estrelas caídas da noite e o vento levava nas mãos invisíveis o aroma das distâncias. Eu buscava um equilíbrio de constância na lua bordada de rendas de prata nos cabelos da noite. Eu observava com atenção e muito pouco entendia, mas sentia que me desfazia de antigos olhares suspensos no pôr do sol. O céu repousava sua melancolia sobre as sombras da montanha e eu não me entristecia. Seguia alegre e minha única tristeza era saudade. Saudade do que vivi ou saudade do que sonhei. Mas foi intenso e o meu ser não se bastava. Como as mãos não se entrelaçavam havia uma dor lilás em meu peito. Mas faz sol e o dia convida à produção, velhas sementes plantadas no chão no ensejo de se fazer comunhão e eu beijava o altar e murmurava orações na transcendente vontade de ser o agora espiritual, embora tão pouco sei, de Deus e desse ser celeste que povoa meus olhos de anil. A primavera chegou e florescem lírios, açucenas, begôneas, girassóis. As flores de maio em seu resplendor se colorem com cores variadas, roxas, rosas, brancas, laranjadas. A saudade é uma flor fora de estação. Talvez seja outono e eu me entretenho em varrer flolhas douradas que numerosas pousam na terra verdade. A saudade é a nossa busca de sentido na vida. É mais fácil eleger uma pessoa amada do que reconhecer que dentro de nós mora um pouco de nada. E no vazio buscamos mil respostas ao amanhecer. E reconhecemos que não somos completos e ainda assim somos capazer de amar e ser feliz. É o que a poesia diz. Mas andemos ligeiros, pois o tempo passa sorrateiro e apaga as fotos antigas e esquecemos na face que muda o ser que se julgava especial. Envelhecemos. E o tempo passa mais rápido. Ser feliz é, então, uma urgência, se os minutos se esvaem nos traços de nosso rosto, no modelar de um novo corpo. O destino escrevia caligrafias de fogo nos mapas da eternidade. A saudade florescia em flores amarelas e ausentes. Seja feliz no presente.
