O Segundo Café Naquela madrugada gelada... Alex Zanute
O Segundo Café
Naquela madrugada gelada de montanha,
uma mãe e seu filho caminhavam juntos,
sem saber que estavam escrevendo uma lembrança
que o tempo jamais seria capaz de apagar.
O frio era cruel.
Daqueles que atravessam a roupa, a pele e os ossos.
Às nove da noite, deitaram-se na barraca para descansar.
Precisavam acordar às três da manhã para continuar a subida.
Mas o vento cortava a escuridão com tanta força,
e o frio era tão intenso, tão absurdo,
que dormir se tornou impossível.
Ali, no silêncio da montanha,
quando o corpo implorava por conforto,
a mãe olhava para o filho.
E o filho olhava para a mãe.
Sem muitas palavras, encontravam força um no outro.
Quando a hora chegou, levantaram-se.
Congelados. Cansados. Desafiados.
Mas seguiram.
Passo após passo, pedra após pedra,
vencendo o medo, o cansaço e a própria vontade de parar.
Até que chegaram ao topo.
O Pico das Agulhas Negras estava diante deles.
O frio continuava impiedoso,
mas naquele instante já não importava.
Porque existem conquistas que aquecem a alma.
E nenhuma vista era mais bonita do que a certeza
de terem chegado juntos.
Na descida, o céu começou a clarear.
A escuridão deu lugar aos primeiros raios de sol,
que tocaram seus rostos cansados como um abraço.
Depois de uma noite quase insuportável,
o calor parecia um presente.
Pararam para tomar um café.
A mãe segurou a caneca com as duas mãos,
sentindo o calor voltar lentamente ao corpo.
Tomou um gole.
Depois outro.
E resolveu pedir mais um.
Talvez porque aquele café estivesse especialmente gostoso.
Ou talvez porque ela soubesse que alguns momentos merecem durar um pouco mais.
Porque naquele segundo café havia algo além do sabor.
Havia a gratidão por estar viva.
Havia a felicidade de ter vencido a montanha.
Havia a alegria silenciosa de dividir tudo aquilo com o filho.
Anos passarão.
O frio será apenas uma lembrança distante.
As dores da subida desaparecerão.
Mas a mãe jamais esquecerá aquele amanhecer.
Jamais esquecerá o sol aquecendo a pele depois da noite mais fria.
Jamais esquecerá o filho ao seu lado.
E jamais esquecerá aquele segundo café.
Porque, às vezes, a felicidade não está no topo da montanha.
Está no privilégio de viver a jornada ao lado de quem amamos.
E foi exatamente isso que aquela mãe levou para casa:
Não apenas a conquista de uma trilha.
Mas uma memória eterna com seu filho.
