HOJE MEU SENHOR? Marcelo Caetano... Marcelo Caetano Monteiro
HOJE MEU SENHOR?
Marcelo Caetano Monteiro.
— Por que vieste hoje, Nazareno?
A voz saiu trêmula, quase um sussurro perdido entre as ruínas da alma.
— Por que vieste agora? Não tenho mais nada para Te oferecer como naquela longa época. Lembras? Eu possuía sonhos. Trazia flores colhidas na esperança. Conservava nos olhos a inocência das manhãs e no coração a música das fontes.
Mas hoje...
Hoje sou toda podridão.
Sou o jardim depois da geada.
A lâmpada esquecida no abandono.
A casa vazia onde o vento atravessa as janelas quebradas.
As mãos que antes ofertavam carícias aprenderam o peso das quedas.
Os pés que corriam pelos campos perderam-se nos espinheiros do mundo.
Não restou quase nada.
Os anos levaram minhas certezas.
As dores consumiram minhas forças.
Os fracassos arrancaram minhas vestes de ilusão.
Hoje sou apenas fragmentos.
Cinzas.
Silêncio.
E o Nazareno permaneceu olhando-a.
Não com os olhos dos homens, que procuram grandezas.
Mas com os olhos da eternidade, que enxergam sementes sob a terra revolvida.
Então Ele respondeu:
— Enganas-te.
Foi precisamente por isso que vim.
Quando julgavas possuir riquezas, oferecias-Me aquilo que sobrava.
Agora ofereces-Me aquilo que és.
Não vim pelas flores.
Vim pelas raízes.
Não vim pela tua força.
Vim pela tua necessidade.
Não vim encontrar a mulher que o mundo admirava.
Vim buscar a alma que o sofrimento revelou.
A podridão que enxergas é apenas a antiga casca desprendendo-se.
A semente acredita estar morrendo quando começa a germinar.
O carvão acredita estar condenado quando a pressão o transforma em diamante.
E tu acreditas ser ruína porque ainda não percebeste o que estou reconstruindo.
As lágrimas desceram lentamente por seu rosto.
Pela primeira vez em muitos anos, não chorava de tristeza.
Chorava porque compreendia.
O Mestre não visitava os perfeitos.
Nunca visitara.
Procurava os cansados.
Os feridos.
Os que haviam perdido tudo, exceto a capacidade de clamar.
E naquela noite ela compreendeu que a maior miséria não era tornar-se pó.
Era acreditar que o Amor Divino não seria capaz de transformar esse pó em luz.
E enquanto o mundo enxergava decadência, o Nazareno contemplava apenas o início de uma nova criação.
