CRÔNICA: FOI AS LÁGRIMAS QUE... Harley Kernner...
CRÔNICA:
FOI AS LÁGRIMAS QUE ESCREVERAM.
BY: Harley Kernner
REFLEXÃO:
Se tudos os casais, quando fossem se separar, tivessem uma noite de despedida assim, haveria menos divórcios.
Tem gente que vai embora devagar só para ver se a gente solicita para ficar. E tem gente que solicita para ficar só mais um pouco antes de ir embora de vez.
Sou do segundo tipo. Do tipo que sabe ler o fim escrito no jeito que você arruma a mala. Que entende que quando o “a gente” vira “eu” e “você” na mesma frase, já não tem volta. Mas mesmo assim, negocia com o tempo.
Não é orgulho que me faz calar quando você diz que não me ama mais. É entendimento. Crescer dói e às vezes a gente cresce para longe de quem ajudou a gente a ficar de pé. Você foi. Eu fiquei. E tudo bem. Só não vai ainda.
Tem despedida que a gente solicita para demorar. Só para guardar direito.
Quero uma noite que não seja sobre colocar ponto final. Quero que seja sobre reticências. Sobre a gente fingir que o amor só tirou férias e não mudou de país. Quero sua pele dizendo que lembra da minha, mesmo que sua boca já tenha ensaiado outro nome.
Porque amanhã o sol nasce e você não está. E depois de amanhã também não. No dia seguinte, eu vou ter que aprender que saudade é o nome que a gente dá para casa quando o morador se muda. Vou sentir tua falta mais do que ontem. E ontem eu já não dormi direito.
Se um dia o amor resolver me visitar de novo, vai ter o teu rosto. Vai ter o teu jeito de bagunçar meu cabelo e minha vida. Porque tem gente que não vai embora. Só muda de cômodo na gente e fecha a porta.
Por isso solicito: fica só mais essa noite. Deixa eu te decorar. Deixa eu guardar teu cheiro no bolso esquerdo da camisa, perto de onde você morou tanto tempo.
Não foi a caneta que escreveu essa despedida. Foi as lágrimas que escreveram. E elas não sabem mentir.
Harley Kernner.
Arquitetura de Poesias e Crônicas
