O Fio Que Me Leva Até Você Há dias em... Flavio Kedson Xavier...

O Fio Que Me Leva Até Você

Há dias em que me perco dentro do castelo de memórias que construí.

Não são memórias reais,
mas lembranças de algo que ainda não aconteceu.

Corredores de possibilidades,
janelas abertas para futuros que nunca vi,
e, em cada uma delas, você.

Penso em você sem conhecer seu rosto.

Penso em momentos,
em gestos,
em encontros.

Sua imagem muda.
Seus traços se transformam.
Sua voz ganha diferentes tons.

Às vezes você é apenas um vulto.
Outras vezes, uma presença quase palpável.

Mas, apesar de todas as mudanças,
sua essência permanece a mesma.

E existe uma frase que ecoa dentro de mim,
como uma canção antiga que nunca termina:

“Um dia eu preciso encontrar você.
Eu preciso de você.”

Então eu tento fugir.

Ergo muralhas.
Construo distâncias.
Convenço a mim mesmo de que tudo isso é apenas imaginação.

Porque na imaginação não existe rejeição.
Não existe despedida.
Não existe perda.

Lá dentro, ninguém parte.

Saio sem destino.
Procuro distrações.
Invento caminhos para esquecer.

Digo a mim mesmo que deveria ser fácil.

Afinal,

como sentir falta de alguém que nunca vi?

Como procurar alguém cujo rosto ainda não existe?

Mas algo sempre me encontra.

Talvez seja sua essência.

Talvez seja aquilo que os japoneses chamam de Akai Ito,
a lenda do fio vermelho do destino:
um laço invisível que une duas almas destinadas a se encontrar,
não importa o tempo,
a distância,
ou quantas voltas a vida dê.

Às vezes parece exatamente isso.

Como se estivéssemos entrelaçados por algo que não compreendo.

Você me encontra nos pensamentos.

Nos sonhos.

Nas músicas.

Nas ruas.

Nos silêncios.

E eu percebo que não existe escapatória.

Ou talvez exista.

Mas talvez eu já não queira escapar.

Porque, no fundo,
o que eu quero é você.

Você.

Será que você entende isso?

Não é sobre carência.

Não é sobre solidão.

Não é sobre preencher vazios.

É sobre conexão.

É sobre reconhecer em alguém uma sensação que a alma parece conhecer antes mesmo do primeiro encontro.

E no fim, talvez eu pudesse simplesmente dizer que amo você.

Mas para quê?

As palavras parecem pequenas diante de tudo isso.

Talvez eu nem precise dizê-las.

Talvez cada verso,
cada busca,
cada tentativa de fuga,
já seja uma confissão.

Porque isto não parece uma escolha.

Parece uma necessidade.

Como o mar buscando a margem.

Como a lua procurando o céu.

Como algo que nasceu para existir junto,
mesmo antes de saber o nome um do outro.

Você faz parte de mim por esse fio invisível.

E eu passo os dias fingindo que corro,
erguendo muros,
inventando desvios,
como quem deseja escapar.

Mas existe uma verdade que não consigo esconder:

eu espero não encontrar uma saída.

Porque toda fuga me leva de volta a você.

E me pergunto:

não seria amar alguém sem conhecer seu rosto uma prova de que existe algo maior do que a razão?

Talvez eu já tenha cruzado seu caminho.

Talvez a pressa tenha me tornado cego.

Talvez eu até conheça seu rosto.

Talvez nossos olhos já tenham se encontrado em algum instante perdido entre os dias.

Talvez você tenha passado por mim sem saber.

Ou talvez eu tenha passado por você.

Às vezes penso que você pode ter estado bem debaixo do meu nariz,
escondida não pela distância,
mas pelo caos da vida.

Pelos compromissos.

Pelas preocupações.

Pela correria que nos faz olhar para tudo,
menos para aquilo que realmente importa.

Talvez eu tenha sentido sua essência antes mesmo de reconhecer sua presença.

Talvez alguma lembrança sem nome,
alguma sensação inexplicável,
algum conforto repentino,
já tenha sido você atravessando meu caminho.

E talvez tenha faltado apenas isso:

o reconhecimento.

Não por falta de insistência do destino.

Não por ausência de conexão.

Mas porque você ainda não me viu da forma que eu esperava.

Ou porque eu ainda não soube enxergar você da forma que merecia.

Talvez o encontro não seja encontrar alguém novo.

Talvez seja apenas reconhecer alguém que, de alguma maneira,
já estava ali o tempo todo.

Mas a conexão permanece.

Ela sempre esteve aqui.

Silenciosa.

Paciente.

Esperando.

E às vezes sinto que você também sempre esteve aqui,

habitando os espaços vazios das minhas lembranças,
os intervalos dos meus pensamentos,
os sonhos que nunca soube explicar.

Talvez não falte criar nada.

Talvez não falte imaginar mais nada.

Talvez tudo já esteja pronto.

Talvez falte apenas o encontro.

E então restam as perguntas.

Em quanto tempo?

Quanto tempo levarei para encontrar você?

Quanto tempo teremos juntos quando isso acontecer?

E, se o destino me conceder menos tempo do que eu gostaria,

serei escolhido mesmo assim? Pois sei que não terei muito tempo e o tempo que tenho venho me direcionado apenas a pacientes que atendo.

Talvez eu nunca tenha essas respostas.

Mas, enquanto elas não chegam,
continuarei caminhando.

Porque, em algum lugar entre o acaso e o destino, entre o sonho e a realidade, existe a esperança silenciosa de que um dia nossos caminhos finalmente se cruzem.

E quando isso acontecer, quando nossos olhares finalmente se reconhecerem,

eu entenderei que nunca estive procurando alguém para completar minha história.

Estive procurando a pessoa que já caminhava por ela desde o início.

A pessoa que habitava meus silêncios antes das palavras.

Que morava em meus sonhos antes da realidade.

Que existia em minha alma antes do encontro.

E então saberei:

eu não estava esperando você entrar na minha vida.

Você sempre esteve nela.

Talvez escondida entre os dias comuns.

Talvez perdida entre os rostos da multidão.

Talvez mais próxima do que imaginei.

Mas sempre presente.

Sempre caminhando em minha direção.

E eu na sua.

Faltava apenas o instante certo.

O momento exato em que duas histórias deixariam de caminhar paralelas.

O momento em que o destino,
enfim,
decidiria nos apresentar.