Confundir Amor sem Medida com Amor em... Alessandro Teodoro
Confundir Amor sem Medida com Amor em Excesso foi uma das desgraças mais confusas — e medonhas — que o ser humano já experimentou.
Talvez porque, em algum momento da nossa história afetiva, tenhamos desaprendido a distinguir a grandeza de um sentimento da desordem que podemos provocar em seu nome.
Talvez porque nos ensinaram que amar muito era amar sem limites, que entregar-se era desaparecer um pouco de si, que permanecer era suportar tudo e que sacrificar a própria paz constituía uma espécie de prova incontestável de devoção.
Mas há uma distância muito abissal entre amar sem medida e amar em excesso.
O amor sem medida é aquele que não se deixa aprisionar por cálculos, conveniências ou pequenas contabilidades emocionais.
Não pergunta quanto recebeu para decidir quanto oferecer.
Não transforma afeto em moeda, presença em obrigação ou cuidado em instrumento de cobrança.
É vasto porque não precisa diminuir ninguém para existir.
É generoso porque não confunde generosidade com submissão.
É livre porque não encontra no outro uma propriedade, mas uma humanidade com a qual deseja compartilhar a existência.
O amor em excesso, por outro lado, frequentemente nasce de uma confusão dolorosa: a de acreditar que a intensidade justifica a ausência de limites.
E, assim, aquilo que poderia ser encontro transforma-se em invasão; aquilo que poderia ser cuidado converte-se em vigilância; aquilo que poderia ser entrega degenera em abandono de si.
Ama-se tanto, ou acredita-se amar tanto, que já não se consegue perceber onde termina o outro e onde começa a própria dissolução.
Há quem chame de amor a incapacidade de partir.
Há quem confunda saudade com dependência, ciúme com zelo, sofrimento com profundidade e renúncia com grandeza.
Há quem faça da própria exaustão um altar e da infelicidade uma espécie de certificado de autenticidade afetiva.
Como se o amor precisasse sangrar para provar que está vivo.
Mas definitivamente não precisa.
O amor não é uma competição de sacrifícios, tampouco uma sucessão de provas de resistência.
Não é a arte de suportar o insuportável, nem a obrigação de permanecer onde a dignidade já não encontra abrigo.
Amar alguém não deveria exigir que deixássemos de ser alguém.
Porque, quando a presença do outro exige a nossa ausência de nós mesmos, talvez já não estejamos diante da plenitude do amor, mas de alguma forma de desamparo disfarçada de devoção.
E existe uma beleza quase revolucionária em compreender que o amor verdadeiro pode ser imenso sem ser sufocante; profundo sem ser destrutivo; incondicional sem ser irresponsável.
Que é possível oferecer o coração inteiro sem entregar também as chaves da própria dignidade.
Que respeitar o espaço do outro não diminui a intensidade do sentimento, assim como preservar a própria individualidade não representa uma ameaça à intimidade.
Afinal, amar não é ocupar todos os espaços de alguém.
É saber habitar aqueles que nos são oferecidos sem violentar os que precisam permanecer livres.
Talvez a maturidade afetiva comece justamente quando compreendemos que nem tudo o que é intenso é profundo, nem tudo o que é duradouro é saudável, nem tudo o que exige muito de nós merece ser chamado de amor.
E que a grandeza de um sentimento não se mede pela quantidade de sofrimento que somos capazes de suportar em seu nome, mas pela humanidade que conseguimos preservar enquanto o experimentamos.
O amor sem medida não é um amor sem fronteiras.
É um amor cuja grandeza não depende de fronteiras artificiais para se expressar, mas que reconhece, com delicadeza e lucidez, que cada ser humano precisa de um território interior onde possa continuar existindo.
No fundo, talvez seja essa a mais difícil e necessária das aprendizagens: não há contradição entre amar infinitamente e estabelecer limites; a contradição está em imaginar que, para amar alguém por inteiro, precisamos nos oferecer em pedaços.
Porque o amor, quando verdadeiramente imenso, não nos pede que deixemos de existir para que o outro exista.
Não nos transforma em prisioneiros de uma promessa, nem em reféns de uma presença.
Ao contrário, faz da liberdade um lugar possível de encontro.
E, se há algo de verdadeiramente sublime em amar sem medida, é descobrir que podemos sentir profundamente sem nos perder, cuidar sem aprisionar, permanecer sem nos anular e partir sem necessariamente deixar de amar.
O amor não deveria ser tão grande a ponto de nos fazer desaparecer.
Deveria ser tão humano, tão lúcido e tão generoso que, mesmo diante de sua imensidão, ainda nos permitisse continuar existindo.
