A Maior Distância Foi Vencer o Medo Era... Peregrino Nino Carneiro
A Maior Distância Foi Vencer o Medo
Era 13 de outubro de 2011. Apesar dos esforços para retomar minha vida, eu ainda convivia com um sentimento que insistia em me acompanhar: o medo. Temia que os seis tumores retirados da minha próstata tivessem deixado algum vestígio escondido, capaz de fazer a doença reaparecer. Entretanto, havia dentro de mim uma força maior do que aquele medo: a fé e uma imensa vontade de viver.
Aos poucos, fui descobrindo que a coragem não significa ausência de medo, mas a decisão de continuar apesar dele. Lembro-me da emoção que senti ao conseguir caminhar cinco quilômetros. Para muitos, aquela distância poderia parecer insignificante, mas, para quem pouco tempo antes se cansava ao percorrer apenas um quilômetro, representava uma vitória extraordinária.
A cada caminhada, meu corpo ganhava resistência, minha fé se fortalecia e minha esperança encontrava novos motivos para florescer. Certa vez, li uma reflexão que jamais esqueci: o sabor da vitória torna-se ainda mais especial quando traz consigo o amargor de uma luta honesta. Afinal, somente quem conhece as dificuldades do caminho consegue compreender plenamente a alegria de chegar ao destino.
A partir daquele momento, passei a desejar distâncias cada vez maiores. Sem perceber, meus pensamentos, antes dominados pelo receio do retorno da doença, começaram a se ocupar com novos percursos e desafios. As caminhadas de médias distâncias deram lugar às longas jornadas, e cada quilômetro percorrido reforçava minha convicção de que a superação exige paciência, fé e perseverança.
E o tempo passou. Aquele homem que comemorava seus primeiros cinco quilômetros conseguiu realizar sonhos que antes pareciam impossíveis. Completei alguns dos mais conhecidos e desafiadores Caminhos de Santiago de Compostela, enfrentando montanhas, chuvas, cansaço e momentos de solidão. Também realizei o desafio de caminhar cem quilômetros sem parar. Recebi elogios, palavras de admiração e até críticas de pessoas que acreditavam que eu estivesse ficando maluco. Mas eu sabia que não caminhava para impressionar ninguém. Caminhava porque cada passo representava uma vitória sobre meus próprios medos.
Entusiasmado com tantas conquistas, resolvi enfrentar um desafio ainda maior: caminhar cento e vinte quilômetros sem parar. Preparei-me e iniciei a jornada determinado a alcançar meu objetivo. Entretanto, depois de percorrer cento e dois quilômetros, decidi interromper a caminhada. Faltavam apenas dezoito, mas meu corpo já demonstrava seus limites.
Para muitos, caminhar cento e dois quilômetros seria motivo de comemoração. Para mim, porém, havia um sentimento de frustração. Naquela noite silenciosa, enquanto recordava o esforço de cada quilômetro, perguntei a mim mesmo se todo aquele sacrifício realmente valera a pena. Com o passar dos dias, encontrei a resposta: sim, havia valido! Afinal, uma caminhada interrompida não apaga os quilômetros percorridos, assim como uma derrota não elimina as conquistas anteriores.
Foi uma das grandes lições que os caminhos me ensinaram: a verdadeira vitória não consiste em vencer os outros, mas em superar nossos medos, reconhecer nossos limites e buscar aquilo que faz nosso coração vibrar. O sabor da vitória não está nos aplausos, nas medalhas ou no reconhecimento das pessoas, mas na paz de consciência de quem sabe que lutou honestamente e ofereceu o melhor de si.
Hoje, quando recordo aquele 13 de outubro de 2011, percebo o quanto minha vida mudou. O homem que tinha medo de caminhar um quilômetro descobriu que poderia percorrer centenas e até milhares deles. Mas a maior distância que venci não foi medida em quilômetros. Foi aquela que separava o medo da coragem, a insegurança da confiança e a preocupação com o amanhã da alegria de viver o presente.
Por isso, acredito que nenhuma conquista tem verdadeiro valor quando nasce da mentira, da injustiça ou da desonestidade. Uma vitória construída sobre a falsidade pode até receber aplausos, mas jamais terá o mesmo sabor daquela conquistada com esforço, coragem e consciência tranquila.
Aprendi que a vitória mais saborosa não é aquela que nos coloca acima dos outros, mas aquela que nos permite olhar para trás e reconhecer que fomos capazes de superar a nós mesmos.
E, se há uma convicção que carrego comigo, é esta:
“A mentira é o refúgio dos incompetentes. A honestidade é a força daqueles que não precisam enganar para vencer.”
Peregrino Nino Carneiro
