Solitário Falo da inevitável... Manuel Naufila Nascimento

Solitário


Falo da inevitável necrocitose,
Do necrocômio nosso lugar eterno,
Da desventura pretérita ao ventre-materno,
Da bacteriose dos mortais, pura simbiose.


A patogenicidade é minha única sanidade,
Estraçalha-me o corpo, a alma moribunda,
A podridão da fauna infecunda,
A neurose proliferada da Humanidade.


Falo da solidão, solitário que sou,
A sodomia das coisas belas me nauseia,
Prende-me o espírito nesta imensa teia
Onde o último espasmo da vida ecoou.


Engendra-se a medula em dor latente,
Na mitose sôfrega das células vazias,
Que replicam mutações e agonias
No sequenciamento cego e decadente.


O oxigénio que nos nutre e corrói,
Na oxidação constante do tecido vivo,
Mostra que o sopro outrora criativo
É a própria enzima que nos destrói.


Sou o diagnóstico da própria ruína,
Um espécime humano em decomposição,
Que busca na febre a sua absolvição,
E na gangrena a sua essência divina.