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Eu amaria cada átomo do seu corpo.
E, se me fosse concedida a faculdade de contemplar aquilo que os olhos não alcançam, amaria também cada partícula de sua alma, cada pensamento que jamais ousou pronunciar e cada silêncio no qual sequer você foi capaz de compreender a si mesma.
Pois, que é o corpo senão a manifestação transitória de algo que, em sua essência, talvez não pertença inteiramente à matéria?
E se a carne se desfaz, se os átomos que hoje compõem sua existência amanhã se dispersam pelos confins da criação, que seria do amor que lhes dediquei? Pereceria ele com a forma, ou permaneceria, incorpóreo, na memória eterna das coisas que um dia se encontraram?
Pergunto-me se amar alguém não seria, em alguma medida, reconhecer-lhe a existência para além daquilo que dela nos é permitido conhecer.
Porque não amo somente aquilo que vejo em você. Amo também aquilo que ignoro. O mistério que precede suas palavras, a imensidão que se oculta por trás de seus olhos e até mesmo as partes de si que talvez jamais sejam reveladas a mim.
E se, porventura, a eternidade nos concedesse existências sucessivas, e em cada uma delas você surgisse sob uma nova forma, com outro nome, outra face e outras memórias, ainda assim eu desejaria reconhecê-la.
Não por recordar quem você foi, mas por sentir, em algum recanto inexplicável de minha consciência, que há existências cuja presença não nos parece inteiramente estranha, mesmo quando tudo nelas nos é desconhecido.
Talvez amar seja isso: não exigir que a forma permaneça, mas desejar que aquilo que nela reconhecemos jamais se perca.
E se um dia me perguntassem por que a amei, não responderia que foi por sua beleza, por suas virtudes ou pelo bem que sua presença me proporcionou.
Diria apenas que, entre as infinitas possibilidades de existência que o universo poderia ter produzido, houve uma em que você existiu.
E a mim, que nada exigi da criação para além da oportunidade de testemunhá-la, isso já me pareceu um milagre inigualável.
