A beleza de voltar para si mesma Sobre... SelmaRodrigues_

A beleza de voltar para si mesma


Sobre liberdade, recomeços e a arte de viver em paz.


Há momentos na vida em que olhamos ao redor e percebemos que, depois de tantas chegadas, partidas, expectativas e experiências, voltamos a um lugar que, de alguma maneira, sempre foi nosso ponto de partida.


Estou novamente com minha avó, como nos primeiros capítulos da minha história. A vida aconteceu, pessoas passaram, relações foram construídas e algumas se desfizeram. No caminho, acumulei experiências, decepções, aprendizados e lembranças. E cá estou, novamente ao lado dela, mas já não sou a mesma menina de antes. Carrego comigo uma bagagem que o tempo, as escolhas e as experiências me ajudaram a construir.


E sabe o que descobri? Não há tristeza em retornar à origem quando levamos conosco uma nova maneira de enxergar a vida. Há, na verdade, uma paz imensa em reconhecer o lugar ao qual pertencemos e perceber que não precisamos estar cercados de pessoas para nos sentirmos completos.


Hoje, compreendo que as pessoas são o que são. Cada uma carrega sua própria história, seus valores, suas feridas, seus aprendizados e sua maneira particular de interpretar o mundo. Nem todos enxergam a vida como eu, atribuem o mesmo significado às relações ou compreendem os sentimentos da mesma maneira. E tudo bem.


Minhas expectativas são minhas, construídas a partir da minha maneira de perceber a realidade. O outro, por sua vez, age de acordo com aquilo que conhece, acredita e consegue oferecer. Isso não significa que devo aceitar qualquer comportamento, mas que posso compreender as diferenças sem abandonar meus próprios valores.


Aprendi que não preciso transformar as pessoas naquilo que imagino que elas sejam. Preciso conhecê-las, observar suas atitudes e permitir que o tempo revele quem realmente são.


Também compreendi que gostar de alguém não significa entregar a essa pessoa o controle da minha paz. Posso construir vínculos sem fazer deles o centro da minha existência. Posso desejar a permanência de alguém sem temer tanto a partida. Posso acolher quem chega, respeitar quem decide ir embora e continuar vivendo.


Não quero mais preencher os espaços da minha vida apenas porque estão vazios. Alguns serão ocupados, talvez. Outros poderão permanecer assim, e não há problema nisso. Não tenho pressa. Hoje, entendo que cada espaço merece ser cuidado com consciência, e que nem toda presença representa um acréscimo àquilo que já construí.


Minha vida não está à espera de alguém para começar.


Ela já acontece.


Acontece quando estou sozinha e posso organizar meus pensamentos sem interrupções. Quando caminho livremente, observo as pessoas, sorrio para alguém e sigo meu caminho sem me preocupar com julgamentos. Quando escolho onde ir, o que fazer e como aproveitar meu tempo. Quando posso simplesmente existir sem sentir que preciso explicar minhas escolhas ou prestar contas da minha intimidade.


Essa liberdade me proporciona uma paz difícil de descrever. Não porque eu tenha deixado de gostar das pessoas, mas porque descobri o prazer de estar comigo mesma.


Gosto de ter companhia quando ela faz sentido, mas também gosto da minha solitude. Não preciso transformar todos os momentos em experiências compartilhadas para que sejam especiais. Há coisas que posso descobrir sozinha, pensamentos que amadurecem no silêncio e alegrias que não precisam de testemunhas para serem verdadeiras.


E, entre tantos momentos que dão sentido à minha vida, estão aqueles em que rezo com minha avó. Neles, encontro o aconchego da nossa história, a força da fé e a beleza de compartilhar algo que ultrapassa as palavras. Minha relação com Deus me ajuda a olhar para a vida com mais serenidade e a compreender que nem tudo precisa acontecer no meu tempo ou conforme minhas expectativas.


Talvez uma das maiores mudanças que experimento seja justamente esta: já não quero viver esperando que grandes acontecimentos me tragam felicidade.


Durante muito tempo, podemos acreditar que a vida começará a sorrir quando realizarmos determinado sonho, encontrarmos alguém especial ou alcançarmos aquilo que tanto desejamos. Entretanto, enquanto esperamos, muitas bênçãos já acontecem diante dos nossos olhos.


Elas estão na tranquilidade de um dia comum, na presença de quem amamos, na oportunidade de estudar, na possibilidade de descobrir algo novo, na oração que acalma o coração e até mesmo na liberdade de sair de casa e contemplar o mundo.


Às vezes, esperamos tanto pelas grandes alegrias que nos esquecemos de reconhecer as pequenas bênçãos que já fazem parte da nossa caminhada.


Hoje, quando olho para a minha vida, percebo que ela está sorrindo para mim todos os dias. Não porque tudo seja perfeito, nem porque todas as minhas vontades tenham sido atendidas, mas porque aprendi a reconhecer o valor daquilo que já existe.


Continuo tendo sonhos, desejos e curiosidades. Quero aprender, conhecer lugares, experimentar coisas novas e descobrir aspectos de mim mesma que ainda desconheço. Quero continuar me encantando com a natureza, com as pessoas que fazem bem à minha existência e com as surpresas que a vida pode reservar.


Mas já não quero fazer do futuro uma condição para apreciar o presente.


Se um dia alguém chegar e fizer sentido permanecer, haverá espaço para compartilhar essa caminhada. Não precisará me salvar da solidão nem me ensinar que minha vida tem valor. Será alguém com quem poderei dividir a beleza de uma vida que já existe, sem precisar abandonar a mim mesma para construir uma história a dois.


E, se esse encontro não acontecer, a vida continuará tendo muito a me oferecer.


Porque minha felicidade não precisa depender de uma presença específica, e minha história não perde o significado quando alguém deixa de fazer parte dela.


Quero continuar aprendendo a amar sem me abandonar, a acolher sem me anular, a respeitar sem ultrapassar meus próprios limites e a compreender que a liberdade também exige responsabilidade pelas escolhas que faço.


Não preciso controlar tudo, prever todas as despedidas ou me proteger de cada possível decepção. Posso agir com prudência e ainda me permitir ser surpreendida. Posso preservar minha paz sem fechar o coração. Posso reconhecer que algumas experiências do passado me ensinaram a escolher melhor, sem permitir que elas determinem tudo o que viverei no futuro.


Afinal, amadurecer não é deixar de sentir. É aprender a lidar com os sentimentos sem permitir que eles decidam sozinhos os rumos da nossa vida.


Hoje, percebo que voltar ao ponto de partida não significa retroceder. Às vezes, significa retornar àquilo que é essencial, mas com olhos diferentes, mais consciência e uma compreensão mais profunda de nós mesmos.


Estou aqui, ao lado da minha avó, vivendo minha história, cultivando minha fé e aprendendo a apreciar a vida que tenho.


Não estou esperando que alguém chegue para começar a viver. Estou vivendo, descobrindo, aprendendo e me encantando com o mundo.


E, quando a vida me sorrir de uma maneira inesperada, quero estar atenta para reconhecer esse sorriso. Mas, enquanto ele não vem na forma que imagino, não deixarei de perceber todos os outros que já recebo diariamente.


Porque, pensando bem, a vida já está sorrindo para mim.


E eu também estou aprendendo a sorrir de volta.


Que eu nunca esteja tão ocupada esperando pelas grandes bênçãos que me esqueça de agradecer pelas pequenas alegrias que já fazem morada na minha vida.


Que eu tenha sabedoria para acolher o que chega, serenidade para respeitar o que parte e liberdade para continuar sendo quem sou.


Que minha fé permaneça firme, que meu coração continue sensível e que minha consciência me ajude a fazer escolhas cada vez mais alinhadas com aquilo em que acredito.


E que eu nunca me esqueça de que a vida não precisa estar cheia de pessoas para estar cheia de significado.


Às vezes, tudo o que precisamos é de paz, fé, liberdade, amor e coragem para continuar descobrindo a beleza de existir.


A vida é surpreendentemente linda. E eu ainda tenho muito a descobrir sobre ela e sobre mim mesma.