A quem me vê sem me enxergar Espero. E,... Isa Emanuelle
A quem me vê sem me enxergar
Espero.
E, enquanto espero, me desespero na esperança de que alguém me perceba sem que eu precise parecer ser aquilo que esperam que eu seja.
Sonho que me vejam, mas veja só que desgraça: quanto mais tento ser visto, mais visto o disfarce, mais visto a vontade de ser visto, menos visto o que sou.
E sou? Ou sou somente o som daquilo que dizem que sou?
Porque me dizem tão dito, me ditam tão ditado, que me torno, de tanto ser chamado, alguém que nunca chamei de meu.
Sou o que digo ou o que digo que sou? Sou o que sinto ou o que sinto que sentem por mim? Sou o que mostro ou o que escondo tão bem que até eu me esqueço de mim?
Espero e espero. E, de tanto esperar, desespero.
Espero que me olhem sem que o olhar me altere, que me ouçam sem que a voz me traia, que me sintam sem que o sentir me sentencie.
Quero ser visto sem ser vistoso, ser notado sem ser notável, ser amado sem ser amoldado, ser querido sem ser adquirido por quem me queira somente quando eu quiser ser o que querem de mim.
Porque há algo de cruel em ser claramente visto e, ainda assim, ser mal compreendido.
Há algo de quase cômico em dizer que sou quem sou e ouvir, como resposta, que não sou quem pareço ser.
Mas quem pareço ser senão aquilo que aprendi a parecer para não desaparecer diante de quem nunca quis me conhecer?
Eu me mostro e me escondo, me escondo e me exponho, me exponho e me componho conforme a composição dos olhos que me compõem.
E, nessa composição, perco partes, parto-me, reparto-me em partes que participam de pessoas que não sou.
Que disparate!
Tanto me reparto para caber que já não sei em qual parte me encontrar. Tanto me adapto para agradar que já não sei a quem devo desagradar para finalmente me agradar.
E o pior não é não me verem. É me verem e não me enxergarem. É me ouvirem e não me escutarem. É me tocarem a alma sem sequer saberem onde ela começa.
É ser presença para os olhos, ausência para o entendimento, aparência para o mundo, desconhecido para quem me chama pelo nome que me deram sem jamais perguntar como eu me nomeio por dentro.
Eu espero.
Espero que alguém veja o que há de avesso no verso, o que há de inverso no que expresso, o que há de imenso no silêncio e de silêncio no que digo.
Que perceba que nem todo sorriso sorri, que nem toda fala revela, que nem todo aquele que se cala consente com aquilo que lhe calam.
Que me veja sem me prever, que me conheça sem me concluir, que me escute sem me traduzir para uma língua mais conveniente.
Pois não quero ser decifrado por quem já decidiu minha definição.
Quero ser lido mesmo quando a leitura for difícil, mesmo quando a frase falhar, mesmo quando eu próprio me contradisser e a contradição disser mais de mim do que eu conseguiria dizer.
Não quero que me inventem perfeito. Quero que não me desfaçam por ser imperfeito.
Não quero que me vejam como gostariam que eu fosse. Quero que gostem de conhecer quem sou quando não estou tentando ser gostável.
E, se for para sonhar, que eu sonhe sem precisar me ensaiar; que eu exista sem precisar me explicar; que eu possa, enfim, ser sem que o ser me custe a necessidade de parecer.
Porque espero e sonho que me vejam como realmente sou.
E, se há alguma ironia nisso, é que passo a vida inteira tentando ser visto enquanto me torno invisível na tentativa de ser visto.
Talvez, um dia, eu não precise mais pedir para que me vejam.
Talvez alguém me olhe e, sem me moldar, me compreenda.
E talvez eu me olhe também.
Porque, no fim, de tanto desejar ser descoberto por alguém, tenho medo de que, quando me encontrem, eu já tenha me perdido de mim.
