Fendas das Vitrines da Existência... Marcelo Hypolito Botelho

Fendas das Vitrines da Existência


"Percebe-se, de longe, o caos orquestrado alheio. E quem o nota, afasta-se; observa à distância, sem se comprometer. É que habitamos uma era em que ninguém suporta encarar a sombra do outro; cobiça-se, tão somente, o feixe de luz que teima em escapar pela fenda da existência alheia. Enquanto isso, o breu expande-se, devorando o que de mais sagrado habita o âmago do ser, projetando para o mundo apenas cascas. Tornamo-nos vitrines vazias de afeto, repletas de valores naufragados na escuridão daqueles que nos sugaram. No fim, não é o caos que apavora, mas a arquitetura da manipulação que o cerca — essa névoa que, gota a gota, veda a entrada da luz e interdita o restabelecimento da ordem.


Na mitologia grega, o caos representa o abismo escuro e ilimitado que antecedia a criação dos deuses. Na Teogonia de Hesíodo, ele surge como a primeira divindade primordial: a origem de tudo o que existe, o vazio original, o infinito vácuo. No mundo atual, contudo, o caos foi romantizado, fantasiado como algo que colabora com o ser. Mas a verdade é que, se alimentado para rivalizar com a ordem, ele se torna um caminho sem volta, uma armadilha mascarada pela destruição e perdição de quem o nutre.


Atravessamos o caos para, enfim, alcançarmos a ordem — assim como Jesus cruzou o deserto e o Calvário, arquétipos desse mesmo abismo, triunfando sobre ele para alcançar a salvação. Vivencie o caos, mas faça crescer a luz e nela estabeleça morada. Que a escuridão primordial seja, tão somente, um breve instante de flerte, jamais de domínio e de viver."


Luz do Elixir


"O caos é passagem, não estadia". D'Ante