⁠Se pudéssemos escolher a nossa hora... Alessandro Teodoro

⁠Se pudéssemos escolher a nossa hora Derradeira, seria muito difícil prever onde haveria mais Baderna: se na terra ou no céu. Na terra, porque a despedida quase... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Se pudéssemos escolher a nossa hora Derradeira, seria muito difícil prever onde haveria mais Baderna:
se na terra ou no céu.


Na terra, porque a despedida quase sempre revela o quanto somos apegados àquilo que julgávamos possuir.


Haveria lágrimas, discursos, abraços demorados, promessas feitas tarde demais e uma pequena multidão tentando negociar com a morte aquilo que nunca esteve sob nosso controle.


Alguns chorariam a nossa ausência; outros, talvez, chorariam a própria incapacidade de nos acompanhar.


No céu, porém, a confusão poderia ser ainda maior — ao menos para aqueles que passaram a vida imaginando que Deus deveria seguir os seus critérios de merecimento.


Uns chegariam esperando reconhecimento, outros, uma fila preferencial, outros ainda, um lugar reservado por causa das orações que fizeram, das igrejas que frequentaram, das regras que cumpriram ou das pessoas que julgaram.


Mas há uma ironia bastante desconcertante na teologia da graça: diante de Deus, ninguém chega carregando currículo suficiente para exigir o paraíso.


A morte tem esse estranho poder de desmontar nossas pretensões.


Ela nos despe dos títulos, das posses, das certezas e até das versões cuidadosamente construídas que fizemos de nós mesmos.


No fim, resta apenas aquilo que sempre fomos diante do Criador: criaturas necessitadas de muita misericórdia.


Talvez por isso o céu seja justamente o lugar onde a nossa baderna termina.


Não porque sejamos finalmente premiados por termos sido impecáveis, mas porque descobrimos, tarde ou cedo, que a salvação nunca foi uma medalha para os melhores.


É graça para os que reconhecem que precisam dela.


E talvez seja essa a maior provocação: se pudéssemos escolher a nossa hora derradeira, talvez escolhêssemos o momento em que estivéssemos mais preparados para morrer.


Deus, entretanto, parece interessado em algo muito mais profundo: que estejamos preparados para viver.


Porque o problema nunca foi simplesmente saber quando iremos partir.


É saber, enquanto ainda estamos aqui, o que estamos fazendo com o tempo que nos foi dado.


No último instante, ninguém terá como reorganizar a própria vida.


Não haverá tempo para fabricar humildade, ensaiar arrependimento ou improvisar fé.


A Eternidade não será uma extensão das nossas desculpas.


Por isso, talvez a sabedoria esteja em viver hoje como quem já entendeu que a hora derradeira não é um acontecimento que podemos agendar.


E que, quando ela chegar, a grande questão não será quanto tempo conseguimos permanecer na Terra, mas o que fizemos com a oportunidade de amar, perdoar, servir e caminhar na direção de Deus.


A morte pode até provocar a última baderna.


Mas a graça é aquilo que, no fim, põe tudo em ordem.