A Pedra que Rola A pedra que rola, que... Bertoleza Maria
A Pedra que Rola
A pedra que rola,
que rola e esmaga,
ameaça esmagar
toda uma existência.
Não de uma vez.
A ameaça vem aos poucos,
em pequenas pedrinhas.
Às vezes, o vento
joga uma pequena poeira.
Mas, para quem está
embaixo da pedra,
uma pequena poeira
é como uma chuva densa
numa floresta tropical.
Somente a ameaça,
em si,
é capaz de congelar
uma existência inteira.
Ela não consegue recuar.
Ela não consegue escapar.
Ela não consegue se mover.
Ela não consegue sair.
E, aos poucos,
foi deixando de existir
e passando apenas
a sobreviver.
Hoje,
a pedra não parece
ser tão grande assim.
Mas o efeito constante,
contínuo,
persistente
e insistente
da ameaça
fez desaparecer
a existência dela por completo.
Hoje,
ela é uma sombra.
Algo vazio.
Às vezes,
há um breve cheiro
do que ela foi um dia.
Um vestígio.
Um sopro.
Uma lembrança
de quem costumava ser.
Talvez um dia
ela se liberte.
Talvez um dia
olhe para si mesma
e perceba o quanto cresceu.
Talvez tenha coragem
de se agigantar,
de levantar-se,
de ocupar novamente
o próprio espaço
e mostrar à pedra
que ela não conseguiu
destruí-la.
Porque, um dia,
ela finalmente renasceu.
