Sinto a urgência de dizer as coisas... CARTASPARANINGUEM

Sinto a urgência de dizer as coisas antes que se percam.
A vida me parece uma despedida escrita em movimento,
capítulo após capítulo, sem rascunho definitivo.


Posso crer no que quiser — eternidade, alma, paraísos.
Mas, de concreto, só me foi dada esta travessia:
começo, meio e um único desfecho.


É o limite que torna tudo raro.
Existir uma vez exige atenção às muitas chances do agora.


Por isso, não deposito fé cega na promessa do amanhã.
Trocar o presente por uma possibilidade futura
é um investimento frágil demais para algo tão sério quanto viver.


Não adio palavras necessárias.
Digo meus “sins”, sustento meus “nãos”.
Cuido do que merece memória
e deixo o resto ir sem alarde.


Arrisco-me.
Lanço meus dados diariamente.
Escrevo-me, risco-me, reescrevo-me —
até que a carta, enfim, encontre seu ponto final.