O AMOR QUE PRESCINDE DA PRESENÇA. Do... MARCELO CAETANO MONTEIRO
O AMOR QUE PRESCINDE DA PRESENÇA.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Joseph Bevouir jamais tocou a figura concreta de Camille Monfort. Não lhe conheceu o gesto cotidiano nem o timbre exato da voz. Ainda assim, jamais esteve apartado dela. Pois há presenças que não se oferecem ao olhar, mas se impõem à consciência como uma verdade silenciosa. Camille existia nele não como memória sensorial, mas como experiência metafísica. Era sentida na densidade da ausência, na doçura melancólica que nasce quando o espírito reconhece algo que não pode possuir, mas tampouco negar.
Quando a alegria se apresentava em sua forma mais rara, Joseph a percebia impregnada de uma estranha familiaridade. Quando a tristeza se fazia quase ordinária, havia nela um traço que a elevava, como se a dor adquirisse sentido por remeter a algo maior que ele próprio. Nesses instantes, compreendia que a presença de Camille não dependia do mundo visível. Ela habitava o território onde a sensibilidade se transforma em entendimento e onde o afeto dispensa a confirmação dos sentidos.
O amor que o unia a ela não se organizava segundo a lógica das relações humanas habituais. Não exigia respostas, nem provas, nem promessas. Era um amor que se sustentava na compreensão silenciosa, aquela que antecede a linguagem e ultrapassa o diálogo. Por isso, tornava-se mais vasto que qualquer tentativa de explicação. Enquanto as palavras procuram convencer, esse amor apenas é. E por ser, compreende.
Joseph intuía que certas ligações pertencem a uma ordem anterior à experiência concreta. São afinidades que não pedem presença física, pois nascem no mesmo lugar onde se originam as ideias mais puras e os sentimentos mais duradouros. Amar, nesse sentido, é reconhecer no outro uma continuidade da própria consciência, ainda que jamais se tenha tocado sua forma.
Assim, ao recordar Camille, não o fazia com nostalgia, mas com reverência. Pois compreendera que o amor sem explicação não é carência, mas plenitude silenciosa. É a prova de que há vínculos que se constroem no invisível e que, exatamente por isso, sustentam o espírito quando tudo o mais se dissolve.
