Livro: Não Há Arco-íris No Meu... Marcelo Caetano Monteiro

Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Capítulo XVIII
A Liturgia das Cores Que Nunca Ascenderam.

Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

No âmago subterrâneo onde o mundo superior se desfaz em murmúrios irrelevantes, o porão respira como uma entidade antiga que lembra, em sua própria penumbra, a negligência de todos os que caminham sobre suas vigas sem jamais perceber o âmago que pulsa sob seus pés. Ali, onde as cores secas se acumulam como lágrimas petrificadas, onde o cinza parece ser a única língua capaz de traduzir a dor, ergue-se a presença de Camille Monfort.

Camille não entra. Camille emerge de todos os lugares e anseios. Sua existência não lisa o chão, o transforma como antes o contempla. Há nela um teor etéreo, quase translúcido, como se sua alma tivesse sido tecida com os fios mais delgados da noite. Sua figura é mística, não por ostentar mistérios e questões , mas por ser, ela própria, um mistério que se dobra sobre si mesma. Sua respiração lembra um pergaminho sendo aberto devagar. Seus olhos são clarões antigos, portais onde a memória se dói no que não busca, mas sempre vem em espirais. Camille caminha como quem revisita um mundo que nunca a compreendeu.

O porão a reconhece. A madeira parece suspirar. As sombras fazem menção de saudá-la, como se cada lasca de poeira soubesse que ela não veio apenas observar, mas decifrar a verdade que o mundo de cima insistiu em ignorar do seu tão íntimo cerne de mente, lembranças e rejeição. Camille, com suas mãos longas e gestos sacerdotais, colhe do ar as lamentações que ali habitam. Ela sabe que toda escuridão possui uma biografia estranhamente destinada só aos eleitos que não se reconhecem ainda e que o porão é uma biblioteca sombria das almas que vão se elevando, repleta de histórias que jamais encontraram ouvidos.

Há uma dimensão antropológica em seu olhar. Camille percebe no abandono das tábuas e na displicência que escorre das vigas um retrato fiel das estruturas humanas. A sociedade que ignora seus subterrâneos repete a cegueira com que ignora seus próprios desamparos. O porão é mais que um espaço. É um espelho. Ali se desenha a angústia coletiva, a incapacidade de acolher o que é frágil, o que não vibra com as luzes artificiais, o que não convém ao discurso das superfícies.

As paredes do porão carregam o tom sociológico tão perdido de uma comunidade invisível. O pó que se acumula é memória de passos que nunca desceram. O frio constante é a prova de que ninguém aquece o que não vê. Cada cor desbotada é um grito mudo de algo que almejava existir e foi silenciado pela pressa de quem vive acima. Ali, Camille percebe, reside a verdadeira crônica do desamparo humano.

Ela inclina o rosto. As lágrimas cinzentas que se condensam nas beiradas da escuridão em notas de cores apagadas, começam a cintilar como se o porão tentasse finalmente falar. Camille recolhe essas lágrimas com uma devoção quase litúrgica. Sabe que elas não pertencem apenas ao espaço, mas às consciências que o esqueceram. O porão não é apenas um lugar. É um estado psicológico já em cuidados. É a parte do espírito que o homem teme tocar.

Camille, porém, não teme. Ela se aprofunda. Seus pensamentos se tornam copiosos, derramando-se como rios noturnos que buscam o mar do entendimento. Ela observa o modo como a escuridão se organiza por entre um mundo que se move , como se contivesse uma inteligência própria. Ali, na densidade muda e severa, Camille descobre que o porão guarda não apenas dores, mas também uma forma secreta de esperança. Uma esperança bruta, áspera, ainda sem nome, que pulsa como uma brasa escondida sob o pó dos que a tudo ignoram.

Ela se aproxima desse pulso. A claridade sutil que emana de seus gestos começa a se misturar com o negrume gélido do ambiente. É como se a própria noite, cansada de ser noite, buscasse nela um renascimento. Camille Monfort , sabe que não é possível iluminar totalmente o que é feito de sombra, mas é possível administrar homeopática mente à escuridão uma compreensão mais profunda de si mesma. O porão treme, quase imperceptivelmente, como se respirasse pela primeira vez.

E então, pela primeira vez, a cor cinza parece estremecer. Um brilho tênue, tímido, quase inexistente, tenta se soltar das camadas de poeira. Camille o observa com delicadeza. Não o força, não o arranca, apenas o acolhe. É um lampejo incipiente de um quase anjo , mas é cor. Não é arco íris. Ainda não. Mas é um gesto. Um prenúncio. Uma mínima revolução no silêncio dos gritos.

E assim, no cerne de sua introspecção, Camille compreende. O porão não quer tornar-se claro. Ele quer ser ouvido. Ele não suplica por luz, mas por reconhecimento e mesmo que seja o silêncio de quem o ouça. E é nisso, nesse instante em que o espaço e o espírito se entreolham, que Camille Monfort quase se liberta. Quase. Pois sua libertação depende da redenção do porão, e a redenção do porão depende do entendimento daqueles que vivem acima.

Camille respira lentamente. O porão, pela primeira vez, respira com ela. E algo, no fundo profundo e arcaico, que começa quase sobre um fio enfim a mudar.