FREDERICO FIGNER E CHICO XAVIER: Uma... Marcelo Caetano Monteiro

FREDERICO FIGNER E CHICO XAVIER: Uma Lição de Desprendimento Material.
Entre os inúmeros episódios que revelam a grandeza moral de Chico Xavier, poucos são tão expressivos quanto aqueles que demonstram seu absoluto desapego aos bens materiais.
Certa vez, o pesquisador Fernando Worm ofereceu a Chico um raro azulejo proveniente das ruínas de Pompeia, adquirido durante uma viagem à Itália. Tratava-se de uma peça histórica de grande valor cultural e artístico. Chico contemplou atentamente a bela pintura e, em seguida, escreveu uma dedicatória no verso da peça, devolvendo-a ao amigo.
Surpreso, Fernando insistiu para que ele aceitasse a lembrança. Com a simplicidade que lhe era característica, Chico respondeu:
— Eu já guardei a peça em minha retina espiritual. Peço apenas que você seja o guardião desta preciosa relíquia por mim.
A resposta sintetizava sua maneira de compreender a posse dos bens terrenos: nada lhe pertencia verdadeiramente, pois seu olhar estava voltado para os valores imperecíveis do espírito.
Outro episódio, ainda mais significativo, envolveu o empresário e pioneiro das comunicações no Brasil, Frederico Figner. Em determinada ocasião, Figner perguntou a Chico se ele possuía algum desejo de ordem material. Inicialmente, o médium tentou esquivar-se da pergunta, mas, diante da insistência do amigo, respondeu que gostaria apenas de dispor de uma renda mensal de trezentos mil réis. Não para conforto pessoal ou enriquecimento, mas para que pudesse dedicar-se integralmente às atividades assistenciais e espirituais, sem a necessidade de gastar tantas horas trabalhando para o próprio sustento.
Algum tempo depois, Frederico Figner desencarnou. Em seu testamento, deixou expressa a vontade de que Chico Xavier recebesse uma quantia suficiente para garantir aquela renda mensal que havia mencionado.
A notícia chegou acompanhada de um cheque enviado pelas filhas do empresário.
Naquele período, Chico e sua família atravessavam dificuldades financeiras consideráveis. A casa onde residiam acumulava débitos de impostos, e a situação econômica era delicada. Ainda assim, ao receber a herança, Chico escreveu uma carta de agradecimento, recusando a oferta. Argumentava que não lhe parecia justo aceitar aquele dinheiro, devendo ele permanecer com as herdeiras legítimas.
As filhas, entretanto, responderam reafirmando o desejo do pai. Embora fossem católicas e não compartilhassem das convicções espíritas de Chico, declararam que faziam questão de cumprir integralmente a última vontade de Frederico Figner e acrescentaram que já haviam recebido patrimônio suficiente.
Mesmo diante da insistência, Chico manteve sua posição. Recusou novamente o valor e sugeriu que o cheque fosse encaminhado diretamente à Federação Espírita Brasileira, onde poderia ser utilizado na implantação de um parque gráfico destinado à impressão e divulgação de obras espíritas.
A decisão causou indignação em seu próprio pai, que conhecia as dificuldades enfrentadas pela família e considerava incompreensível a recusa de um auxílio tão providencial. Chico, porém, permaneceu inabalável.
Para ele, os recursos materiais somente possuíam valor quando colocados a serviço do bem coletivo. Sua consciência não permitia que aceitasse para si aquilo que poderia beneficiar uma obra maior. Assim, transformou uma herança pessoal em instrumento de difusão da mensagem espírita, oferecendo mais uma demonstração de coerência entre suas palavras e seus atos.
Mais do que um gesto de renúncia, o episódio constitui uma verdadeira lição de desprendimento material, testemunhando que a riqueza do espírito não se mede pelo que se possui, mas pela capacidade de servir e de renunciar em favor do próximo.
Fonte: O Homem Que Falava com Espíritos.
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