‘ENTREVISTA COM ANTONIO... Risomar Sírley da Silva

‘ENTREVISTA COM ANTONIO AMBUJANRA...’


"Seja bem-vindo Risomar Silva, mas não fique confortável demais, porque conforto é uma ilusão. Isso aqui não é uma entrevista, é um confronto. Você está diante das câmeras, mas também diante de si mesmo.


Vamos começar com algo simples, que poucos têm coragem de responder: qual foi a primeira grande mentira que você contou para si mesmo e que só percebeu tarde demais?"


- Acreditar que o mundo era um bom lugar! Pensava eu que o mundo era um 'lugar maravilhoso!' como em canções e filmes de finais felizes. Borboletas voando, sem imaginá-las que vinham de um casulo horroroso. Mero engano, o mundo é uma farsa!


"Isso! Agora você começa a falar a língua dos espertos."
O mundo maravilhoso... Bah, isso é conversa de manual de autoajuda ou de político querendo voto. O mundo é uma farsa, sim. Mas preste atenção na minha pergunta, porque eu não vim aqui para fazê-lo de coitado.
Se o mundo é uma farsa, como você diz... e você está dentro dele. O que isso faz de você?


- Um cúmplice de carteirinha. Sou, digamos, uma farsa passageira. Apenas mais um, nada diferente, mas com suas indiferenças. A verdade é que, vivemos a vida toda fingindo, salvo engano quando éramos criança inocente.


"Farsa passageira..." Isso é bonito. Quase poético. Daria um título de novela das seis, mas vamos deixar a poesia de lado.
Você disse: 'vivemos a vida toda fingindo, salvo engano quando se era criança. Aí é que está o veneno, meu caro. O que é essa inocência (ser criança)? O bebê que chora para mamar já não está encenando um desespero para conseguir o que quer?
Então me diga: se você hoje já sabe que é uma farsa... qual é a máscara que você mais custa a arrancar?


- A de pai dedicado, um profissional bem-sucedido, a de que levo uma vida parcialmente saudável e feliz. Uma coleção de personagens que me convenci a interpretar. E quantos são...


"Parabéns! Você acaba de descrever a vitrine do século XXI."
Bom pai... bom emprego... vida parcialmente saudável... Meu amigo, isso não são máscaras! Isso é o cardápio do medo. Você usa isso para dormir à noite, não para viver de dia.
Sabe o que eu enxergo? Um homem que cansou de representar, mas tem medo de sair do palco porque lá fora não tem aplauso, não tem salário, não tem filho pedindo benção.
Então a pergunta que não quer calar... Você quer mesmo arrancar essas máscaras?


- Sobre 'arrancar essas máscaras', não tenho o empenho suficiente para jogá-las ao lixo. Cobrir o rosto a futuros inimagináveis é torturante, mas acho que no fundo, ainda quero um pouco disso. Sobre o 'teatro ser confortável', creio que a vida é uma representatividade, uma ressaca infinda, mas necessária.


"Interessante... muito interessante."
Essa sua ideia de que "a vida é uma representatividade"... Olha, cuidado com palavras bonitas que viram muleta. Representar para quê? Para agradar quem? Para suportar o quê? Você transformou a máscara num uniforme. E pior: acha que sem ela o frio vai doer demais.
E pode ser que doa mesmo. Mas me diga uma coisa, já que você é tão honesto na sua desonestidade: se a morte chegasse amanhã, e você soubesse - não da boca para fora - que acabou... você iria bater no peito e dizer: "Bom, pelo menos representei bem o papel de pai, de profissional, de homem parcialmente são"?Ou iria sentir um gosto amargo na língua, aquele gosto de tempo perdido?


- Não sou são, tenho uma psique atormentada. Pensamentos acelerados diariamente. Quando falo que a vida é uma representatividade, não quero dizer que as pessoas não saibam dessas evidências. Em algum momento da vida saberão. Tenho representado bem os meus papéis: filhos, emprego sólido, esposa, bens materiais e tantas outras babaquices... Acho que fiz o meu melhor e ainda continuo. Não bateria no peito, mas iria com saudades. Não tenho ressentimentos com o tempo. Não iriaadiantar.


"Ok."
Você me deu um nó. E gosto de nós. Desfazê-los é meu vício.
Você não quer arrancar as máscaras, mas também não se ilude com elas. Sabe que é representação, e ainda assim... representa bem. Tem resultados: filhos, esposa, bens, solidez. Não é um coitado. Não é um fracassado. É, pelo seu relato, um homem que funciona.
E talvez seja isso que me intriga e me assusta no momento.
Porque um homem que funciona, que tem saudades, que diz "fiz meu melhor"... esse homem não precisa de terapia. Não precisa de confronto. Precisa de quê? De um espelho que não devolva só a imagem do personagem, mas o que sobra quando o personagem dorme.
Você diz: "iria com saudades". Saudade de quem? Do pai que você foi? Do marido? Do trabalhador? Ou saudade daquele menino que, antes de aprender a representar, talvez nem soubesse que o mundo era uma farsa?


- Ninguém ‘quer ir’. Encaro a morte com muita solidez! Apesar dos pesares, a vida é boa. Sentiria saudade do mundo, dessa bolha que não me acostumei a controlar para meu bel prazer. Sinto saudades dos que foram e penso neles toda semana, como se tivesse ainda ligados (a eles) assim como a cama que, só seria cama, se tivesse colchão.


Na calada da noite, quando não há plateia, nem filhos, nem patrão, nem esposa olhando, você escuta algum sussurro? Não um grito. Não um desespero. Apenas um sussurro que diz algo como... "e se?"


- ‘Se’, palavra tão pequena, mas que inspira. E se meus pais não tivessem se conhecido. Se meus avós não tivessem se encontrado. Se eu tivesse virado à esquerda e não tivesse conhecido ela. Se eu não tivesse falado com ou conhecido alguém? O ‘se’ transborda destinos. Inspira poesias. Constroem e desconstroem sonhos. Gostaria de tê-lo usado mais vezes na prática.


Entendo.
"Ah... uma última pergunta antes que sua água esfrie ou torre, Risomar Sírley da Silva, o que é a vida?"


- A vida é um ensaio de perguntas. Uma ressaca premeditada. É o intervalo entre duas máscaras: a do pré-adolescente e a velhice. O susto nos olhos do palhaço. É o prato de comida que esfria enquanto você filosofa sobre a fome!


--- Risomar Sírley da Silva ---