Acho que a vida é bonita justamente nas... Evandro Cunha

Acho que a vida é bonita justamente nas coisas que deixamos por último.
Nos abraços que não demos por achar que haveria tempo.
Nos “eu te amo” presos na garganta.
Nas lágrimas que seguramos por orgulho, medo ou pela necessidade idiota de parecermos fortes nesse teatro que chamamos de vida.
Vivemos quase sempre no automático, ocupados demais fazendo planos, tentando parecer inteiros, racionais, invulneráveis. Mas no final, quando todas as máscaras caem, sobra só aquilo que realmente nos atravessou: o amor.
Um amor estranho, abstrato, que nasce nas brechas da razão.
A flor que nasce no precipício.
Algo tão humano e tão puro que, por alguns instantes, faz desaparecer cor, ego, orgulho, gênero, diferença, ódio. Só sobra presença.
E talvez seja isso que mais me emociona na existência:
nossas imperfeições.
Somos falhos.
Errantes.
Quebrados em muitos lugares.
Mas ainda assim capazes de recomeçar.
Como uma estátua rachada, coberta por flores e musgo, cercada por um gramado verde-esmeralda. Não perfeita, mas viva. Tocada pelo tempo, pela dor e ainda assim bonita.
Às vezes me sinto como uma orquestra silenciosa, tocando melodias que ninguém jamais poderá ouvir completamente. Um violino melancólico atravessando memórias e paixões perdidas, enquanto um piano toca calmamente ao fundo, como se dissesse que ainda existe beleza nisso tudo.
E existe.
Porque no fim, acho que o que realmente chama pela nossa humanidade não é a perfeição.
É a capacidade de sentir.
De amar.
De sofrer.
De olhar para o outro com a alma desarmada.
Mesmo num mundo cansado.
Mesmo quando esquecemos disso durante nossas alegrias.
Mesmo quando a vida insiste em endurecer a gente.
Talvez viver seja exatamente isso:
continuar florescendo entre as rachaduras.