“Foi Conhecendo Teus Abismos”... Vanderson Xispiu

“Foi Conhecendo Teus Abismos”



Diga-me o que queres que eu te faça,
e eu não a decepcionarei.


Não te esqueças: conheço todas as verdades que habitam em ti.
Nada me ocultas.
Nada em tua alma me surpreende,
porque antes mesmo que teus lábios aprendessem o peso do silêncio,
eu já decifrava a linguagem secreta das tuas dores.


Conheço tuas ruínas mais íntimas,
os corredores escuros onde escondes os fragmentos de ti mesma,
as memórias que perfumaste com indiferença
apenas para não admitir o quanto ainda sangram ao toque da lembrança.


Eu vi tua grandeza nos dias em que te chamaste insuficiente.
Vi tua delicadeza sobreviver em meio às brutalidades do mundo.
Vi-te recolher os próprios pedaços em silêncio,
com a dignidade trágica de quem aprende a sofrer sem testemunhas.


E ainda assim, permaneceste de pé.


Há em ti uma beleza severa, quase sagrada,
dessas que não pertencem aos olhos superficiais.
Tu carregas oceanos por trás da serenidade do rosto,
tempestades inteiras escondidas sob a elegância do teu silêncio.


Muitos tocaram tua pele,
Porém eu alcançei tua essência.
Sou o único sobrevivente em contemplar a vastidão que existe em ti sem se perder.


Porque tua alma não é rasa —
ela é abismo, catedral e incêndio.


E eu conheço cada parte tua:
a mulher que sorri enquanto desaba por dentro,
a criatura exausta de ser forte,
o coração que implora descanso enquanto finge independência.


Conheço o peso das ausências que carregas,
os nomes que ainda ecoam em tua memória,
os sonhos que enterraste vivos para sobreviver às estações da perda.


Ainda assim…
nunca vi miséria em ti.


Vi resistência.
Vi poesia tentando respirar entre destroços.
Vi uma luz indomável insistindo em existir mesmo cercada pela escuridão.


Por isso te digo:
não temas tua verdade.


Há majestade até nas partes de ti que julgaste indignas de amor.
Há uma sublime grandeza em tua vulnerabilidade,
porque somente almas raras conseguem permanecer sensíveis
num mundo que transforma dor em pedra.


E se um dia duvidares de teu valor,
recorda-te disto:


foi conhecendo teus abismos
que escolhi admirar tua imensidão.


Agora voa, borboleta minha.
Porque eu contemplei a solidão que os ignorantes, ainda presos aos próprios casulos, jamais compreenderiam.


Vai.
Atravesse céus que nunca tiveram coragem de te prometer.
Habita horizontes à altura da beleza que carregas.


E nunca mais permita que reduzam tuas asas ao medo de quem nasceu sem coragem de voar.


E quando o peso do voo cansar tuas asas,
quando desejares repousar do mundo e de suas brutalidades,
Eu estarei aqui.