Entre a Dor e o Gesto Entre a lâmina... Francisco Dantas
Entre a Dor e o Gesto
Entre a lâmina invisível das dores que te atravessam
e o peso mudo dos dias que não cessam,
ainda assim… você me escreveu.
E há nisso mais do que palavras —
há travessia.
Porque sei: não foi impulso,
foi escolha.
Não foi leveza,
foi coragem.
Havia silêncio antes,
havia a mágoa — esse território árido
onde quase nada floresce.
E, ainda assim,
você fez brotar um gesto.
E nós…
não fomos pouco,
não fomos rasos,
não fomos passagem.
Fomos chama —
às vezes indomável, é verdade —
mas nunca inexistente.
E talvez, para o mundo, reste apenas
um fio tênue…
mas em mim, ainda é chama inteira.
Não sei o que o tempo fará de nós,
nem se os caminhos voltarão a se tocar,
mas existe algo que em mim não se apaga —
silencioso, maduro, sem pressa —
uma esperança que já não grita,
mas permanece.
E, no fim,
entre a dor que te habita
e o gesto que me alcançou,
eu escolho reconhecer:
foi coragem.
