Passarinho que voa sem lembrança do... J. Clementino

Passarinho que voa
sem lembrança do anterior,
sem rosto, sem voz,
sem saber de onde veio.

Ainda assim, voa.

Seu único vestígio:
O tempo é a tardança
daquilo que se espera.

Pobre criança das noites fundas,
que pensa e pensa,
e sofre por pensar.

Talvez o anterior
nem esteja mais aqui.
Talvez, para ti,
nunca tenha estado.

Então voa,
como sempre voaste,
mesmo sem ter quem te ensinasse.

Pobre criança,
não te deram o pai,
mas te deram o céu.