Ela caminhava com o corpo curvado, de... Monalisa Ogliari
Ela caminhava com o corpo curvado, de cabeça baixa, olhando para o chão, como quem carrega sua solidão com solenidade. Ela olhou para o lado e avistou um pardal, dois, três. E pensou que se ela fosse um pássaro, talvez tudo seria mais fácil. Não tinha acontecido nada ruim naquele dia, mas ela chorava uma vida inteira. Ela já foi feliz muitas vezes, mas se recusava a lembrar. Vinha à sua mente apenas abandono, vergonha, tristeza profunda. Em algum lugar da cidade um aluno lembrava dela com carinho. Professora por muitos anos. Mas nada mais importava. Sentia-se anônima e invisível. Foi ao supermercado e, em um caixa preferencial, cedeu o lugar a um idoso. Ele agradeceu. Ela respondeu "é um direito seu". O idoso puxou conversa e ela aproveitou para interagir alguns instantes. Ele falou que se não fosse a fé em Deus, ele nada seria. Ela pensou sobre como admirava as pessoas que tem fé. Ela respondeu descrente ao idoso "se o mundo todo se organiza, só pode ser a existência de Deus". O idoso respondeu que nem tudo se organiza, pois tem muita gente passando fome. Ela pensou que ele não era ingênuo, já que respondeu exatamente o que ela pensava, mas tentava esquecer. O idoso foi embora. Ela respirou fundo, segurou a angústia que sentia no peito e pagou a conta. Ela voltaria agora para o silêncio de seu apartamento. Colocou o ar condicionado no mais frio. Ela gostava de sentir frio. Tinha a sensação que o frio a distraia. Guardou rapidamente as compras e no celular ela assistia vídeos repetitivos, que a acompanhava no decorrer das horas, enquanto a noite caia lentamente. Solitude, solitude, solitude. Repetiu a palavra três vezes para tentar transformar sua solidão em algo mais palatável. "Se ainda houvesse minha mãe", pensou na dor de quinze anos atrás, quando sua mãe morreu em um acidente de carro. Depois que sua mãe partiu, ela nunca mais dirigiu. Tinha muito medo do trânsito. A solidão que ela sentia era decorrência de várias fatores. Ela mesma foi se afastando. Não queria mais ter amigos. Queria apenas o silêncio de seu apartamento gelado. Uma amiga antiga escreveu sobre a saudade que ela sentia. A amiga falou que ela brilhava. Ela respondeu sincera "são outros tempos. Agora convivo com a depressão". A amiga respondeu que ela sempre brilharia. Ela fechou os olhos com tristeza. Despediu-se da amiga, que tinha sido muito generosa nas palavras. Então se lembrou de um tempo feliz, como quem se lembra do cinema mudo. A amiga havia feito bem a ela. Então pegou os materiais de arte, tela, tinta, pincel. E pintou um gato bem colorido, no estilo pop art. Assim estava sendo sua rotina. Era como se carregasse um peso em seu corpo. E já não acreditava mais na medicina.
