LIVRO: O CÉU E O INFERNO. Análise com... Marcelo Caetano Monteiro
LIVRO: O CÉU E O INFERNO.
Análise com obras da Codificação Espírita.
TERRA E CÉU NA FILOSOFIA ESPÍRITA DO PROGRESSO.
A Doutrina Espírita apresenta uma das concepções mais amplas e profundas acerca da estrutura moral do universo. Na obra "O Céu e o Inferno", especialmente no Capítulo 3 da Parte Primeira, intitulado "O Céu", encontra-se uma exposição elevada sobre a solidariedade universal dos Espíritos e sobre a verdadeira natureza da felicidade espiritual.
Essa passagem esclarece que a felicidade não constitui privilégio de um lugar circunscrito do universo, nem recompensa arbitrária concedida exteriormente ao Espírito. Ela nasce do próprio estado moral do ser, resultante de seu grau de adiantamento e de suas conquistas interiores.
LIVRO "O CÉU E O INFERNO".
PARTE PRIMEIRA. DOUTRINA.
CAPÍTULO III. O CÉU.
ITEM 15.
"15. Todas as inteligências concorrem, portanto, para a obra geral, seja qual for o grau a que tenham chegado, e cada uma na medida das suas forças. Umas no estado de encarnação, outras no estado de Espírito. Em toda parte a atividade, do ponto mais baixo até o mais alto da escala, todas se instruindo, ajudando-se mutuamente, estendendo a mão umas às outras para atingir o cume.
Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corporal, em outras palavras, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos livres e os Espíritos cativos. Assim se perpetuam e se consolidam, pela purificação e continuidade das relações, as simpatias verdadeiras e as afeições santas.
Em toda parte, portanto, a vida e o movimento. Nenhum canto do infinito que não seja povoado. Nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por inúmeras legiões de seres radiosos, invisíveis para os sentidos grosseiros dos encarnados, mas cuja visão arrebata de admiração e alegria as almas desprendidas da matéria.
Em toda parte, enfim, há uma felicidade relativa para todos os progressos e para todos os deveres cumpridos. Cada um traz em si os elementos de sua felicidade, relativa à categoria em que o coloca seu grau de adiantamento.
A felicidade deve-se às qualidades próprias dos indivíduos, e não ao estado material do meio onde eles se encontram. Ela existe então em toda parte onde há Espíritos capazes de ser felizes. Nenhum lugar circunscrito lhe é designado no universo. Seja qual for o lugar onde se encontrem, os puros Espíritos podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte."
Essa concepção apresenta um princípio fundamental da filosofia espírita. O universo constitui uma imensa comunidade espiritual regida pela lei do progresso. Cada inteligência participa da grande obra divina conforme o grau de desenvolvimento que possui, colaborando na harmonia geral da criação.
A solidariedade entre os seres não se limita ao plano humano. Ela abrange simultaneamente o mundo corporal e o mundo espiritual. Encarnados e desencarnados participam da mesma dinâmica evolutiva, auxiliando-se mutuamente na ascensão moral e intelectual.
Essa realidade encontra confirmação doutrinária em outra obra fundamental.
"O LIVRO DOS ESPÍRITOS".
PARTE SEGUNDA. DO MUNDO ESPÍRITA OU MUNDO DOS ESPÍRITOS.
CAPÍTULO I. DOS ESPÍRITOS.
QUESTÃO 87. MUNDO NORMAL PRIMITIVO.
"87. Ocupam os Espíritos uma região determinada e circunscrita no espaço?
Estão por toda parte. Povoam infinitamente os espaços infinitos. Tendes muitos deles de contínuo a vosso lado, observando-vos e sobre vós atuando, sem o perceberdes, pois que os Espíritos são uma das potências da Natureza e os instrumentos de que Deus se serve para execução de Seus desígnios providenciais. Nem todos, porém, vão a toda parte, por isso que há regiões interditas aos menos adiantados."
A doutrina espiritual revela, portanto, que o universo é essencialmente habitado por inteligências espirituais. O mundo invisível não constitui exceção ou mistério isolado. Ele representa a realidade fundamental da existência.
A vida corpórea é apenas um estágio temporário da jornada do Espírito. O estado natural da alma é o mundo espiritual, onde se elaboram os destinos, se assimilam as experiências e se planejam as novas etapas evolutivas.
Esse princípio relaciona-se diretamente com o ensino moral apresentado no Evangelho.
"O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO".
CAPÍTULO 10. BEM-AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS.
"1. Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia."
Mateus 5:7.
"2. Se perdoardes aos homens as ofensas que vos fazem, também vosso Pai celestial vos perdoará os vossos pecados. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados."
Mateus 6:14 e 15.
"3. Se vosso irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele somente. Se te ouvir, ganhado terás a teu irmão. Então Pedro perguntou a Jesus: Senhor, quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim para que eu lhe perdoe. Será até sete vezes. Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes."
Mateus 18:15, 21 e 22.
A interpretação espírita desses ensinamentos amplia o sentido moral da misericórdia. O perdão não constitui simples concessão social, mas expressão da elevação espiritual da alma.
"O esquecimento das ofensas é próprio das almas elevadas, que pairam acima do mal que lhes quiseram fazer. Uma está sempre inquieta, de sensibilidade sombria e amargurada. A outra é calma, cheia de mansuetude e caridade.
Infeliz daquele que diz: Eu jamais perdoarei. Porque, se não for condenado pelos homens, o será certamente por Deus. Com que direito pedirá perdão de suas próprias faltas, se ele mesmo não perdoa aos outros."
Essa reflexão demonstra que o progresso espiritual não se realiza apenas pelo conhecimento intelectual. Ele exige transformação moral profunda.
A misericórdia, a caridade, o perdão e a fraternidade constituem os instrumentos pelos quais o Espírito se liberta das imperfeições que o mantêm ligado aos mundos inferiores.
No Capítulo 3 do Evangelho encontra-se ainda outro princípio fundamental.
"O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO".
CAPÍTULO III. HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI.
DIFERENTES ESTADOS DA ALMA NA ERRATICIDADE.
A Doutrina Espírita ensina que a reencarnação não se restringe à Terra. Trata-se de um princípio cósmico de evolução pelo qual o Espírito percorre diferentes mundos conforme o grau de seu adiantamento moral e intelectual.
A Terra é classificada como mundo de provas e expiações. Nessa categoria predominam as dores, as contradições humanas e as imperfeições morais. Essa condição não representa punição arbitrária, mas mecanismo educativo da lei divina, destinado à purificação gradual do Espírito.
Nos mundos mais adiantados, a existência apresenta características profundamente diferentes. A matéria torna-se menos densa, os corpos aproximam-se de natureza mais sutil e muitas das necessidades físicas desaparecem.
Nessas esferas superiores não existem as enfermidades que afligem a humanidade terrestre. As relações sociais também assumem estrutura mais harmoniosa, pois o egoísmo foi superado e o orgulho já não domina os Espíritos que ali habitam.
A fraternidade torna-se realidade viva. A igualdade manifesta-se naturalmente. A liberdade permanece íntegra, pois não existem paixões desordenadas que exijam repressão.
Esses mundos funcionam como etapas de repouso e aperfeiçoamento na longa jornada evolutiva do Espírito. A felicidade ali experimentada é proporcional ao mérito adquirido pelo trabalho moral realizado ao longo das existências sucessivas.
Contudo, mesmo nesses planos elevados, a felicidade não é absoluta. O progresso continua indefinidamente, conduzindo o Espírito a estados cada vez mais elevados de consciência, sabedoria e pureza.
Essa pedagogia espiritual pode ser comparada ao desenvolvimento humano. A criança encontra alegrias próprias da infância. O adulto experimenta satisfações mais profundas na maturidade. Assim também o Espírito vivencia graus crescentes de felicidade à medida que se eleva moralmente.
A Doutrina Espírita apresenta, portanto, uma visão profundamente consoladora do universo. Não existem condenações eternas nem privilégios arbitrários. O cosmos é uma vasta escola espiritual onde cada ser aprende, trabalha, repara os próprios erros e avança gradualmente.
A lei divina governa essa ordem universal com perfeita justiça e infinita misericórdia. Cada existência representa um degrau da longa ascensão espiritual.
E nessa grande marcha evolutiva do Espírito revela-se a mais sublime verdade da filosofia espírita. A felicidade não é um lugar onde se chega. É um estado da alma que se constrói pela caridade, pela sabedoria e pela elevação moral que aproxima o ser humano da harmonia eterna da criação.
