E se a Enxurrada de Tragédias... Alessandro Teodoro

E se a Enxurrada de Tragédias estiver substituindo as outras por puro capricho em testar a nossa Humanidade?
Talvez uma das dores mais difíceis de suportar no nosso tempo não seja apenas a sucessão de tragédias, mas a velocidade com que uma atropela a outra, como se o sofrimento tivesse entrado numa lógica perversa de reposição imediatista.
Mal nos comovemos verdadeiramente com uma ferida, e outra já se abre diante dos nossos olhos, exigindo atenção, indignação, lágrimas e até nos cobrando posicionamento.
Não porque a dor anterior tenha cicatrizado, mas porque o mundo parece ter se acostumado a empilhar ruínas sem nos dar tempo de recolher os cacos.
E então surge uma inquietação amarga: e se essa enxurrada não estiver apenas acontecendo diante de nós, mas também revelando algo dentro de nós?
Porque cada nova tragédia não testa só a resistência de quem sofre diretamente, mas também a sensibilidade de quem assiste.
Testa nossa capacidade de não transformar o horror em rotina, de não banalizar o luto, de não trocar a compaixão pela pressa e nem a memória pelo próximo escândalo.
Há algo profundamente desumano no modo como o excesso pode nos anestesiar.
Quando tudo vira urgência, corre-se o risco de nada mais tocar com profundidade.
A alma, cansada, começa a se defender como pode: seleciona dores, relativiza outras, acostuma-se ao absurdo, faz do espanto um gesto breve e do esquecimento uma necessidade funcional.
Mas é justamente aí que mora o perigo.
Porque a Humanidade não se perde apenas quando alguém pratica o mal — ela também se enfraquece quando os demais já não conseguem sentir o peso dele.
Talvez o maior teste não esteja na tragédia em si, mas no que ela encontra em nós quando chega.
Se encontra indiferença, estamos falhando.
Se encontra seletividade, estamos adoecendo.
Se encontra apenas espetáculo, opinião apressada ou conveniência emocional, talvez já estejamos permitindo que a dor alheia seja consumida como paisagem.
Ser Humano, nesses tempos, talvez seja resistir à tentação de tratar cada tragédia como conteúdo passageiro.
É se recusar a permitir que a repetição da barbárie reduza nossa capacidade de sentir, de pensar e de cuidar.
É entender que não honramos nenhuma dor apenas reagindo a ela por alguns instantes, mas preservando nela o seu peso, sua gravidade e sua dignidade.
No fim, talvez a pergunta mais incômoda não seja se as tragédias estão testando a nossa Humanidade.
Talvez seja: quantas delas ainda serão necessárias até percebermos que a prova nunca esteve no acontecimento, mas na forma como escolhemos permanecer Humanos depois dele?
