Invisíveis Caminhava. Um chamado,... Oswaldo Jesus Motta

Invisíveis


Caminhava.
Um chamado, baixo, insistente:
- ei... ei...
Parei.
-Moço... você me vê?
Vi.
Mas hesitei na resposta
como quem mede o peso de existir.
-Porque passam...
e não olham.
-Digo "bom dia"
o ar responde.
Fez uma pausa,
dessas que não cabem no tempo:
-Será que estou invisível...
ou já não vivo?
Engoli seco.
A cidade seguia
indiferente, intacta.
-Não - eu disse
-é o mundo que desaprendeu
a enxergar.
Estamos todos
à procura de algo:
um rosto que devolva o olhar,
uma palavra que permaneça,
uma mão
que não atravesse a nossa.
Ele sorriu -
quase luz, quase ausência.
Vá com Deus.
E partiu devagar,
como quem já sabia
o caminho de desaparecer.
Fiquei.
E desde então,
quando passo por alguém,
carrego o medo súbito
de também
não ser visto.