VÓS SOIS DEUSES - A DIGNIDADE HUMANA... MARCELO CAETANO MONTEIRO
VÓS SOIS DEUSES -
A DIGNIDADE HUMANA ENTRE A LEI ANTIGA, O CRISTO E A VISÃO ESPÍRITA.
A expressão “Vós sois deuses” encontra-se no Salmos 82:6. O versículo declara. “Eu disse: Vós sois deuses, e vós todos sois filhos do Altíssimo.” O cenário do poema sagrado é jurídico e profético. O texto apresenta o Senhor erguendo-se na assembleia e julgando aqueles que exercem autoridade. Não se trata de uma exaltação metafísica do homem, mas de uma admoestação solene aos magistrados que deveriam refletir equidade e, em vez disso, praticavam iniquidade.
A MATRIZ HEBRAICA E O SENTIDO ANTROPOLÓGICO.
No horizonte semítico, o termo traduzido como deuses pode designar seres investidos de função representativa. O governante, ao administrar a justiça, age como delegado do Eterno. Sua missão não é criar normas arbitrárias, mas aplicar princípios superiores. Quando o cântico afirma que tais homens são deuses, está reconhecendo a responsabilidade que lhes foi confiada. Logo em seguida, porém, a sentença é contundente. “Todavia, como homens morrereis.” A mortalidade recorda a fragilidade comum. A autoridade não altera a condição ontológica.
Sob o prisma antropológico, o salmo revela tensão permanente entre poder e consciência. Sociedades antigas vinculavam soberania e sacralidade. O rei possuía aura quase divina. Contudo, a tradição israelita rompe com a absolutização do mando. Mesmo o juiz é criatura finita. O texto denuncia a corrupção institucional e reafirma a primazia da retidão.
O USO CRISTOLÓGICO EM JOÃO 10:34.
Séculos depois, o Nazareno retoma a passagem. No Evangelho de João 10:34, ele declara. “Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses.” O contexto é controvérsia pública. Seus interlocutores acusam-no de blasfêmia por afirmar relação singular com o Pai. A resposta de Jesus é argumentativa. Se a Escritura atribui o título de deuses àqueles que receberam a palavra, por que seria ilícito reconhecer a filiação espiritual daquele que foi consagrado e enviado.
A estratégia retórica não nivela todos à essência divina. O Cristo distingue vocação e natureza. Ele aponta coerência interna do texto sagrado. A revelação progressiva demonstra que a dignidade humana deriva do chamado à justiça e à comunhão com o Altíssimo.
FILOSOFIA DA DIGNIDADE E RESPONSABILIDADE MORAL.
Filosoficamente, a fórmula “Vós sois deuses” exprime paradoxo. O homem participa da ordem transcendente por meio da razão, da liberdade e da capacidade ética. Todavia permanece contingente. A tradição clássica compreendia a virtude como assimilação do Bem supremo. A Escritura confirma essa vocação elevada, mas sublinha a necessidade de coerência prática.
A crítica do salmo não é teórica. É moral. Quem exerce autoridade deve proteger o órfão, defender o necessitado, libertar o oprimido. Quando falha, degrada o próprio mandato. A elevação simbólica converte-se em julgamento severo.
LEITURA ESPÍRITA E EVOLUÇÃO DO SER.
Sob a ótica espírita, o ser humano é Espírito em processo de aperfeiçoamento. Criado simples e ignorante, O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - Capítulo I - Dos Espíritos - Progressão dos Espíritos.
114. Os Espíritos são bons ou maus por natureza, ou são os mesmos Espíritos, que se melhoram?
“São os mesmos Espíritos que se melhoram e, melhorando-se, passam de uma ordem inferior para outra mais elevada.”
115. Dos Espíritos, uns terão sido criados bons e outros maus?
“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, e para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus lhes impõe, os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa ao seu destino final. Outros só a suportam murmurando e assim, por sua culpa, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.”
a) – Segundo o que acabais de dizer, os Espíritos, em sua origem, seriam como as crianças, ignorantes e inexperientes, só adquirindo pouco a pouco os conhecimentos de que carecem com o percorrerem as diferentes fases da vida?
“Sim, a comparação é boa. A criança rebelde se conserva ignorante e imperfeita. Seu aproveitamento depende da sua maior ou menor docilidade. Mas a vida do homem tem termo, ao passo que a dos Espíritos se prolonga ao infinito.” progride por meio de experiências sucessivas. A expressão bíblica pode ser compreendida como antecipação simbólica dessa destinação. Somos filhos do Altíssimo porque trazemos em nós princípio inteligente oriundo da Fonte divina. Não possuímos divindade absoluta, mas potencial de crescimento moral e intelectual.
A Doutrina Espírita ensina que a grandeza do Espírito não se confunde com privilégio estático. Trata-se de conquista gradual. A reencarnação oferece campo educativo. A lei de causa e efeito assegura responsabilidade. Assim, “Vós sois deuses” adquire sentido pedagógico. Somos chamados a refletir atributos de justiça, misericórdia e sabedoria, não por essência igual ao Criador, mas por afinidade progressiva.
DOS TEMPOS DE JESUS À CONTEMPORANEIDADE.
Historicamente, a frase percorreu séculos de debates teológicos. Algumas correntes místicas enfatizaram participação na vida divina. Outras insistiram na distância infinita entre Criador e criatura. No campo antropológico moderno, cresce a consciência da dignidade intrínseca da pessoa. Direitos humanos, ética pública e responsabilidade social dialogam, ainda que indiretamente, com essa herança bíblica.
Em perspectiva espírita, a humanidade atravessa estágios de maturidade coletiva. A revelação evangélica amplia a noção de filiação. Todos são convocados à fraternidade universal. Não há castas espirituais. Cada consciência é semente destinada a florescer.
CONCLUSÃO.
“Vós sois deuses” não proclama autossuficiência humana. Exprime convocação elevada. O homem é filho do Altíssimo enquanto participa de Sua lei e se orienta pelo bem. Quando se afasta da justiça, reduz-se à própria limitação. Quando cultiva virtude, aproxima-se da finalidade superior.
Entre o salmista que admoesta juízes e o Cristo que ilumina consciências, ecoa a mesma verdade. A dignidade não é concessão arbitrária. É responsabilidade sagrada. E cada geração é chamada a provar, por suas obras, que compreendeu a grandeza do chamado que lhe foi dirigido.
