PELE, SUOR E LÁGRIMAS. A ESTÉTICA DA... Marcelo Caetano Monteiro

PELE, SUOR E LÁGRIMAS. A ESTÉTICA DA ENTREGA.
A pele é o primeiro território da alma. Nela inscrevem-se os silêncios, as vigílias e os estremecimentos que não se confessam. A tradição filosófica sempre compreendeu o corpo como linguagem visível do invisível. Desde Aristóteles, que via na forma a expressão da essência, até Arthur Schopenhauer, que percebia no corpo a objetivação da vontade, a epiderme jamais foi mero invólucro, mas revelação.
O suor não é apenas secreção fisiológica. É testemunho. É o selo da disciplina, da luta, do esforço que se encarna. No atleta, no artista, no lavrador medieval que preparava a terra sob o sol austero do século XI, o suor era sacramento do trabalho. Ele dignifica a carne porque revela perseverança. Há beleza no suor porque há verdade na entrega.
A beleza, quando autêntica, não se reduz à simetria ou à proporção clássica celebrada por Leonardo da Vinci. Ela nasce da intensidade com que se vive. A pele marcada, o rosto cansado, o olhar úmido possuem uma estética superior à frieza perfeita. A verdadeira formosura é dramática. Ela carrega história.
E as lágrimas. As lágrimas são a mais alta forma de inspiração. Não são fraqueza. São transbordamento. Na literatura, em Os Sofrimentos do Jovem Werther, o pranto tornou-se linguagem da alma romântica. A lágrima purifica a visão. Ela lava o olhar e, paradoxalmente, ilumina.
Pele é presença. Suor é combate. Beleza é verdade. Lágrima é elevação.
Quando esses quatro elementos se encontram, a existência deixa de ser mera sobrevivência e transforma-se em obra. E somente quem ousa sentir até a última gota compreende que a inspiração não nasce do conforto, mas da coragem de viver intensamente.